sexta-feira, 22 de julho de 2011

Filosofia popular (22 de julho de 1959)


Curioso como o cidadão comum, expende as vezes, tiradas filosóficas ímpares. Quem se der ao cuidado de prestar atenção às conversas corriqueiras e espontâneas, nascidas do livre pensar de quem-quer-que seja, verificará, que, ao lado de muitas idéias inconcretizáveis, poderão ser aproveitados alguns pontos de vista, condutores de alguma parcela de lógica e razão.

Cronista, por dever de ofício, habitua-se auscultar o que se lhe apresenta, sem que isso signifique intromissão. Força de hábito.

O elemento de imprensa, bem como o político, gosta de conhecer o módo de pensar de outrem, para avaliar e analisar o entender alheio. Disso embora não o perceba, sempre tira bom proveito, porque vai ficando ao par dos pensamentos uniformes e ao mesmo tempo vai conhecendo disparidades diversas de pensares alheios.

A filosofia popular é uma força latente, tão bem preceituada em nosso regime democrático, que faculta ao cidadão, pensar e agir como bem entende, desde que dentro das delimitações prescritas pelas nossas leis magnas.

Ouvíamos ainda ontem à noite, num dos bares da cidade, numa “rodinha” de amigos, conversas variadas. Os pontos principais focalizados cingiram-se ao futeból e as marchas e contra-marchas políticas da cidade, verificadas nos últimos dias.

A derrota sofrida pelo futeból local, domingo passado, na cidade de Presidente Prudente, continuava a representar, para muitos daqueles que trocavam idéias, espinha de peixe entalada na garganta. Comentou-se naquele circulo, as funções do técnico do clube, a conduta da diretoria, o comportamento dos jogadores, etc., numa análise profunda aparentemente. Surgiram opiniões diversas a respeito e o assunto “pegou fogo”.

Nós estávamos “de camarote”, ao lado da “assembléia”, acompanhando o desenrolar da troca de pareceres.

Do futeból, a conversa enveredou pelo rumo político e da mesma maneira que alguns dos presentes se constituíram em técnicos em assuntos pebolísticos, igualmente se transformaram em argutos observadores da política. Foram emitidos conceitos diversos, nos quais duas figuras primordiais serviram de alvo. Censurou-se na oportunidade, a ação de determinado político, de maneira até bastante impiedosa. Houve quem fizesse a defesa do elemento visado, tentando desbaratar, com argumentações poliformes, as afirmativas da parte contrária.

Dessas conversas, percebemos algumas “tiradas” dosada de boa lógica, ao mesmo tempo que conhecemos diversos “venenos” e entederes infundados. A filosofia popular, em evidência, ao par de seu lado bom, poderá trazer à cavalo, a parte desagradável. Isto, se os pontos de vista razoáveis foram divulgados sem contestação e se os motivos de “onda” expirassem no nascedouro. Por exemplo, vimos na análise referida, referências elogiosas a determinado político, com a demonstração de um verdadeiro “curriculum vitae” da pessoa; apresentou a face boa do homem, as qualidades insuspeitas do indivíduo. Simultaneamente, no emaranhado de idéias que estavam sendo trocadas pelos cidadãos comuns, vimos a demonstração de uma outra faceta da mesma pessoa. E, francamente, achamos até graça no contraste flagrante, formando, no conceito diferente de algumas pessoas, a identificação de uma bi-personalidade alheia.

Ficamos pensando ainda, ao abandonar nosso ponto de escuta, o que não seria então, se aqueles pensamentos díspares, em proporção, atingissem a todos, indistintamente. Seria uma balburdia dos diabos e uma dificuldade incrível, o passar-se a verdade numa peneira desapaixonada.

Extraído do Correio de Marília de 22 de julho de 1959

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