domingo, 8 de maio de 2016

A senhora morreu com sede, mamãe? (08 de maio de 1983)

O velho-novo espanhol, imigrante e semianalfabeto, era pai de sete filhos, em vésperas do oitavo. 

Manoel, era o seu nome. Os anos de 1931, 1932 e 1933, ele os havia passado na mesma fazenda, como colono, “tocando” seis mil pés de café velho e bem formado.

Ele e a mulher, a Josefa, davam duro no cafezal, de sol a sol. A mulher levantava invariavelmente às quatro da manhã, fazia o café e o almoço. O homem ia cedinho para a lavoura e a esposa depois de cuidar da casa, alimentar as crianças – que deixava aos cuidados da  mais velha das mulheres, a Isaura, de 8 anos – levava o almoço para o marido e lá ficava até o sol apresentar duas braças de fora. 

Então regressava para casa.

Zéca era o filho mais velho. Tinha cerca de 11 anos, mas não parecia tanto, pois era magrinho, pequeno, quase raquítico. Trabalhava de sol a sol. Ele e o Joaquim, um negrinho que era seu “irmão de criação”, cortavam diariamente lenha nos pastos, que vendiam em carro-de-boi na cidade 12 quilômetros dali.

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Com aquiescência do fazendeiro, o Manoel plantava feijão e milho nos vãos de uma pequena horta, que lhe fornecia tomates, verduras e outras “misturas” para o feijão-com-arroz, durante o ano inteiro. 

Trabalhador persistente, criava sempre seus porquinhos “para o gasto”. Vinte e dois a vinte e cinco carros de lenha eram vendidos por mês, a 8, 10 e 12 mil réis. Isso representava sempre um dinheirinho guardado e reservado. E o Manoel, por economia e segurança, deixava “na mão” do patrão, todos os pagamentos bimensais, para receber com o “pagamento geral”, após a colheita do café.

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Não tanto cansado, mas muito mais preocupado com o futuro dos filhos, o espanhol tencionava abandonar a lavoura, transferindo-se para a cidade, onde os rebentos pudessem cursar um grupo escolar.

Cafelândia era onde moravam. Mudaram-se para a cidade, com o fito de aguardar o nascimento do oitavo nenê, para depois transferir a residência em definitivo.

Procurando “dar uma volta” para “estudar” alguma coisa, Manoel tomou um ônibus e veio parar em Marília. Gostou da cidade, mas percebeu que não tinha nenhuma profissão que pudesse exercer num centro em desenvolvimento. Visitou outras pequenas urbes das adjacências e acabou aportando em Vera Cruz. Optou pela cidadezinha simples e que o cativou. Estabeleceu negócio e comprou um bar. 

Deu uma “entrada” (sinal de negócio) e acertou que dentro de determinado tempo, voltaria com a mudança e tomaria posse do estabelecimento. Acabou perdendo o dinheiro empregado e nunca mais retornou a Vera Cruz. O destino fez sua vida mudar.

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Zéca, o garoto, foi avisado de que iria “ganhar” mais um irmão,  ou irmã. Na época certa a mãe de Josefa foi ter em casa do Manoel, pois ela iria incumbir-se de fazer o parto da filha, como havia feito outros.

Mas o caso ficou grave e a sogra pediu que o genro chamasse um médico. O Dr. Edgard Moss compareceu. No próprio quarto do casal, sem qualquer preparo antecipado, precisou executar uma cesária de urgência, imediatamente.

Quando o médico saiu, a mulher estava prestes a morrer. O doutor havia recomendado que não desse água à doente, porque a mesma havia perdido muito sangue.

O menino, assustado, estava próximo ao leito. Os adultos choravam, percebendo o desenlace, mas o menino, nos seus  10 anos de infância e ingenuidade roceira, não atilava muito bem com a dura realidade. A mulher pedia e implorava agua, pelo amor de Deus. O menino teve uma reação súbita: correu à cozinha e não encontrou agua na lata onde sempre havia o líquido para o uso doméstico e para beber. Dirigiu-se na escuridão da noite para o quintal, foi ao poço, desceu o balde ao fundo e começou a girar a manivela com pressa. Apanhou o balde, encheu um canecão feito com uma lata de óleo “Sol Levante” e correu para o quarto. Quando a mãe viu o caneco com agua esforçou-se para estender, mas as mãos dos presentes arrebataram a vasilha, impedindo. O menino chorou, esperneou, pediu. Os familiares, sinceros e respeitosos à ordem do médico, que deveria voltar em seguida, com outro medicamento, não deixaram o garoto dar a água.

A mulher alisou a mão do menino, tentando umedecer os lábios secos. Com os olhos semicerrados, balbuciou ao filho: “... quantas estrelas... bonitas... muito bonitas... um campo azul... muito azul...”.

O menino foi afastado, os familiares desesperaram-se. Choros e gritos. A Josefa morreu.

O menino, o Zéca, sou eu próprio. Indago-me, sozinho, neste 8 de Maio:

- Mamãe, a senhora me perdoa por eu não poder ter-lhe dado a água? A senhora morreu com sede, mamãe?


Extraído do Correio de Marília de 08 de maio de 1983

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