terça-feira, 24 de maio de 2016

Bate papo com um caboclo (24 de maio de 1983)

Comentei, em especial, um bate papo estabelecido com um caboclo, possivelmente analfabeto de pai e mãe.

Como havia dito, em se tratando de um homem de pouca escolaridade, por isso mesmo uma pessoa inculta, mesmo com seu linguajar distanciado da gramática e da pronúncia vernacular exata, vi no caipira um espírito arguto e uma criatura de profundo sentido observatório.

Dentre outras coisas e além dos motivos por mim revelados, disseram-me outros pensamentos através de sua palestra espontânea e de certa forma previamente sensata.

Por exemplo:

- Parece que o eleitorado brasileiro não está ainda convenientemente preparado para a abertura política local. Ele ainda vota em barganha, em coronéis, em pessoas que prometem empregos ou vantagens.

- O Governo da Revolução está certo. Quem não está certo é o escalão de seus administradores e ajudantes. Estes, ou ocultam do Governo a verdade, ou distorcem os fatos e informam de maneira errônea, porque não é acreditável que o Governo tenha conhecimento da realidade dos fatos e de como vivem os brasileiros em geral.

- Durante o tempo em que prevaleceu o Governo da Revolução, desprezando-se as mamatas e as mordomias, o povo viveu melhor. Não se falava em assaltos a bancos e nem a postos de gasolina. Nem em greves seguidas e em todos os setores da vida que o povo necessita. Agora, não. Apenas falou-se em abertura democrática e todo mundo passou a badernar, roubando, assaltando, fazendo e provocando greves e entraves à vida de todos os cidadãos. E, como sempre, sendo que a corda arrebenta do lado mais fraco, os efeitos principais recaem sobre os costados dos pobres e miseráveis.

Prosseguiu o paraibano deste colóquio:

- O Brasil precisa de pena de morte, para punir os ladroes e criminosos, aqueles que violentam mulheres e crianças, aqueles que matam e roubam bancos e postos de gasolina, aqueles que assaltam e colocam em polvorosa toda a população.

- Para falar a verdade, sou a favor do esquadrão da morte.

Estranhei e quis saber por que e o caboclo completou seu pensamento, dizendo:

- Sou a favor do esquadrão da morte e também do mão branca, porque entre todos os crimes que essas duas forças tenham praticado, não figura homem de bem, nenhuma pessoa de bons princípios e costumes. Só bandidos, criminosos comprovados e desconhecidos do arquivo do crime, é que foram mortos. Daí, significa uma limpeza e uma garantia aos bons e trabalhadores, com a eliminação dos que, por conta própria, não querem enquadrar-se no caminho da decência e da dignidade dos homens que trabalham e ajudam o crescimento da Pátria.

Arrematou o nordestino que esteve em Minas e no Paraná:

- Inda agora, a televisão (ele tem tevê preto e branco, confessou) está fazendo uma campanha para saber como vai viver o brasileiro no ano 2.000. Essa campanha nem precisa ser feita. O que precisa é garantia e segurança. Segurança, sim. Com segurança o brasileiro se vira, dá um jeitinho em plantar, em melhorar a vida, dá um jeito de viver acertadamente. Mas precisa segurança, para que a mulher dele possa sair para o trabalho ou para fazer compras, para que os filhos possam ir sossegados para a escola, para que o homem possa viajar e se locomover tranquilo, para que não existam assaltantes em bancos, para que não haja violências sexuais e para que todos vivam tranquilos em seus trabalhos, especialmente em sua casa. Só com essa segurança o brasileiro viverá. E essa segurança só será possível desde que haja uma pena capital, para acabar com os bandidos – finalizou o paraibano.

Extraído do Correio de Marília de 24 de maio de 1983

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