domingo, 12 de junho de 2011

Tempinho, “chato”, sim senhor! (12 de junho de 1959)

O homem nunca está satisfeito plenamente. Se vivendo modestamente de um ordenado mensal, aspira, é certo, uma chance de melhorar pecuniariamente, cogitando trabalhar por sua própria conta em qualquer futura ocasião. Se tal consegue, principia lógo a descortinar idéias mais avantajadas, objetivando progresso e projeção. Nunca está de todo contente e poucos são os que se habituam a aceitar como dificuldades e tropeços de uma atividade, os chamados “ossos do ofício”.

Se é sapateiro, queixa-se da vida, comparando seu amigo alfaiate como pessoa de mais sorte e de maiores possibilidades de bem viver. Este, por sua vez, pensa o contrário com relação ao mecânico, o mecânico faz uma idéia diversa do prático de farmácia, êste do médico, o facultativo do advogado, e assim por diante. Isso prova que o homem é um eterno descontente.

Se for perguntado ao próprio Conde Matarazzo se ele está satisfeito com a vida, é provável que o mesmo apresente uma série de razões de insatisfação; poderá alegar a enormidade de sua responsabilidade, as atenções para com suas centenas de departamentos e industrias, obrigações para com o fisco e empregados, etc.. Até o Rockefeler poderá dizer o mesmo.

Regra geral, uma pessoa aspira uma coisa na vida. Às vezes, custa para conseguir e objetivo e outras não o consegue. Mas alcançando o desiderato colimado, acomodando-se no plano anciosamente cogitado, ao envés de ficar tranquilo e satisfeito, começa lógo a antevisar uma nova vida ou uma nova providência. Se vai bem nos negócios e o dinheiro “entra” regularmente, o conformismo céde lugar à maior ganância e a pessoa passa a dar mais elasticidade aos desejos, pretendendo e tudo fazendo para ganhar mais. Se tem um caminhão de transporte, procura lógo adquirir o segundo e também o terceiro. Se possui duas casas de aluguel, esforça-se para conseguir a de número três. E assim, indefinidamente.

Como se vê, a insatisfação é própria do homem, alguma coisa assim da própria natureza. Significa o desejo de progredir, fóra de dúvida e deve ser elogiado todo aquele que assim pensa, ao contrário de conformar-se “marcando passo” eternamente. Sucede, porém, que entre esse desejo lógico e plausível, não se póde ocultar, na maioria dos casos, o desmedimento inconteste, característico do homem de nosso mundo e de nossos éras.

O mesmo acontece agora com a temperatura que domina há dias a nossa cidade. Não há quem não reclame contra o friozinho impertinente ou contra o vento incomodativo e cortante. Não há quem não deseje um sól quente. Entretanto, quando o tempo é diverso, ou quando sentimos de fato os rigores do verão, fazendo-nos suas bicas e abusar de gelados, sem dormir bem durante a noite em virtude da canícula, não há também que não deseje um dia frio ou noite gelada...

Acontece que as coisas não se fazem, não caminham e não se desenrolam, conforme todos nós queremos. Se tal fôra, isto seria u’a maravilha para muitos e uma desgraça para outros, pois se tudo acontecesse como todos pretendem, vocês não acham que sempre haveria os que pretenderiam mais do que os outros, sendo, portanto, mais poderosos?

Acontece que o friozinho está mesmo incomodativo e nós, como não constituímos excessão à regra, bem que desejaríamos hoje um dia de bastante calor.

Tempinho “chato”, sim senhor!

Extraído do Correio de Marília de 12 de junho de 1959

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