quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Nobilíssima campanha (11 de agosto de 1959)


Nobilíssima e humana, plena do mais irrestrito sucesso, foi a Campanha do Sangue Vivo, ontem encerrada em Marília. Provou, mais uma vez, o quão grandioso é o coração mariliense. Atestou com insofismável certeza, o qual humana é a cooperação de gente de Marília, que acorreu de pronto e sem fazer-se de rogada, a doar de suas veias, o plasma da vida – o único líquido capaz de reerguer uma vida em eminência de morte, não substituído ainda pela ciência dos homens.

Pelo seu gesto e sentido eminentemente altruístico, incontestavelmente cristão e profundamente humano, mereceu aplausos de reconhecimento de todos aqueles que comungam os sentimentos de fraternidade e solidariedade humana.

Ricos e póbres, pretos e brancos, de diversos pensamentos religiosos, irmanaram-se piedosamente, doando o próprio sangue, para socorro de milhares de vidas. Foi um exemplo edificantes dado pelos marilienses, que, mais uma vez, souberam – como sempre –, responder “presente” quando reclamados.

Atestamos mais uma prova de inconteste sentimentalismo dos marilienses. Vimos a satisfação plena a irradiar-se dos semblantes daqueles, que, após a sangria, não puderam ocultar a satisfação íntima e consciente, a dominar os próprios Egos. Ninguém pelo que vimos – e de outra maneira poderia ser –, doou seu sangue com terceiro objetivo. Todos o fizeram cônscios da grande importância do gesto, compenetrados da alta missão que o fato representou.

Foi uma coisa bonita, o transcorrer das quasi três centenas de doações espontâneas registradas pela Campanha do Sangue Vivo em Marília. Muitas vidas poderão ser salvas com o sangue bondoso da gente mariliense.

Voltaram impressionados com a espontaneidade dos marilienses, os facultativos que aquí estiveram, fazendo as operações referidas, extraindo o sangue e transportando-o para o Hospital das Clínicas em São Paulo.

Até um fato digno de nota verificou-se no último sábado: Quando as sangrias estavam apresentando movimento intenso, quando as filas dos doadores voluntários se acotovelavam pacientemente, aguardando as suas vezes de doarem o sangue, um apêlo surgiu da Sta. Casa de Misericórdia: um indigente estava prestes para sofrer uma delicada intervenção cirúrgica e necessitava com urgência do precioso plasma. Um dos médicos do H. C., paralizou de imediato seus exames públicos, para remeter incontinenti o sangue recém-extraído de um voluntário. Ainda quente, a seiva da vida de um mariliense, foi transportada para o corpo de um outro, doente, póbre e necessitado!

Marília está de parabéns, como e parabéns estão os marilienses que tão solicitamente se acercaram dêsse humano movimento. Os marilienses deram mais uma sobeja prova de seu amor ao próximo, correndo para prestigiar e alimentar tão nobilíssima campanha, campanha que não tem pai, porque todos cerraram fileiras em tôrno da mesma. Entidades particulares, associações de classe, autoridades e personalidades diversas, além de cidadãos vários e povo em geral, coordenaram, em pensamento e ações, igual objetivo, hoje vitorioso e elogiável. Apesar que a publicidade em tôrno da Campanha fôra feita quasi “em cima da hora”, não faltou o apôio que para a mesma se esperava. Arrumou-se o local, os leitos, o material necessário, auxiliares burocráticos, refrigeradores, alimentação especial para os sangrados e tudo o mais que mister se houve na ocasião, numa demonstração de desprendimento, abnegação e solidariedade do povo mariliense.

Extraído do Correio de Marília de 11 de agosto de 1959

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