segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Atores para o cinema nacional (22 de fevereiro de 1958)

Acaba o Governador do Estado de aprovar, extenso parecer da Comissão Estadual de Cinema, acêrca da criação de um Curso Intensivo de Atores para o Cinema Nacional. Tal medida destina-se a funcionar “como primeiro passo e experiência, no sentido de uma ação maior futura do Estado, no plano do ensino cinematográfico”.

De acôrdo com o plano previamente elaborado, o curso em referência terá a duração de 10 meses consecutivos, devendo iniciar-se já em março vindouro. Constará de aulas teóricas de 40 minutos e práticas de 90 minutos, dividido em 123 aulas de Noções Gerais de Cinema, 134 Aulas Teóricas de Interpretação e 180 práticas, além de 20 conferências de duas horas de duração cada uma.

Patrocinará tal modalidade de instrução, o próprio Governo do Estado, por intermédio da Comissão Estadual de Cinema e será realizado em convênio com o Seminário de Cinema do Museu de Arte de São Paulo, entidade dotada de instalações adequadas e apetrechos necessários ao funcionamento do aludido ensinamento, além de grandes conhecimentos e experiências do “metier” relacionado com a sétima arte.

Será inteiramente gratuito o curso em téla, objetivando a conquista máxima da eficiência do citado ensino. Por esse motivo, será o mesmo reservado a 20 candidatos escolhidos em rigoroso exame de seleção, através de testes de cultura geral, vocação e expressividade de tipos próprios e determinados. Em comum acôrdo, o Seminário de Cinema do Museu de Arte de São Paulo e a Comissão Estadual de Cinema escolherão a banca examinadora e os professores especializados que ministrarão o aludido curso intensivo.

Será firmado o convênio respectivo, no Palácio do Govêrno, em solenidade especial, por ocasião dos prêmios “Governador do Estado” para Cinema e Teatro.

Uma boa coisa, sem dúvida alguma, desde que alcance “in totum” seus pontos preconizados. O cinema nacional estava mesmo a exigir um melhor aprimoramento de sua vida interior, com a apresentação de um “cast” de artistas mais adequado e um selecionamento mais perfeito dos motivos rodados. Estamos fartos de ver cantores de rádio e TV fantasiados de “astros” e “estrelas” de cinema. Estamos igualmente saturados de ver músicas de carnaval em películas nacionais, cenas de favelas e escolas de samba.

Temos elementos e valores suficientes para empreender a realização de um cinema melhor, principalmente sendo idênticas as despezas de um filme, quer trate-se de um caso policial, um motivo trágico ou uma história amorosa. Tamborins, cuicas, pandeiros, escolas de samba e favelas não são questões próprias para um filme brasileiro. Filmar-se seguidas cenas de conhecídissimos cantores e cantoras de rádio já está por demais “abacaxi”, cançativo, revoltante.

Oxalá a medida óra em referência consiga atingir seu ponto colimado, sem o sistema-padrão que até aquí vinha sendo motivo primordial para a filmagem da maioria de nossas películas. Oxalá, tambem, revelem-se novos atores, capazes, de vocações por excelência. Chega de “canastrões” no cinema nacional. Temos meios e elementos para isso. É só procura-los, dar-lhes “chance”, testa-los, incentiva-los. Isso é o que se pretende fazer agora, com a realização dêsse curso intensivo.

Medida ótima, embora um pouco tardia. Esperemos que dê bons resultados.

Extraído do Correio de Marília de 22 de fevereiro de 1958

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