domingo, 8 de julho de 2012

TIPOS & COISAS E CASOS (18)


Uma espécie de líder. Um homem que irradiava simpatia e confiança. Não tinha muita escolaridade. Mas possuía uma filosofia de vida verdadeiramente admirável. Isso lhe proporcionava um caráter firme e forte.

Salustiano éra seu nome.

Chegara à cidadezinha, ainda menino, com apenas sete anos. Era o mais antigo habitante do lugar, o único sobrevivente daquelas que foram os verdadeiros pioneiros da pequena urbe. Isso lhe outorgava um respeito profundo.

Salustiano era um autentico filósofo sem escola. Lia, ouvia emissoras de rádio e, com um impressionante poder de retenção de informações e acumulação mental de tudo o que via, lia e ouvia, faziam-no credenciado de uma pessoa muito inteligente.

Todos gostavam de papear com o Tio Salustiano. Os mais novos deliciavam-se em ouvir os “causos” que contava, sobre aspectos diversos de fatos que haviam ocorrido no pretérito. Sua memória era algo incomum. O próprio prefeito e mestres-escolas, recorriam a Salustiano para confirmar ou inteirar-se de aspectos, detalhes ou informes sobre os mais variados assuntos que o passado se incumbira de arquivar.

Invariavelmente, a partir das três da tarde, Salustiano chegava à pracinha da Matriz, local bastante sombreado pelas afrontosas e quase centenárias seringueiras, que se intercalavam com inúmeras jaqueiras, tornando o local diferente, curioso, agradável.

Sempre havia gente em redor de Salustiano, para ouvir as últimas notícias que aconteciam na Capital e até no “estrangeiro” – como diziam. Os que ouviam as descrições do velho, consideravam-se bem orientados e igualmente instruídos.

Não faltava um dia, nem aos domingos. Sua presença era esperada e indefectível. Benquisto, sempre bem humorado, parecia sentir sobre a importância de ser importante.

Sempre era inquirido para contar um fato realmente ocorrido e que marcara impressão na cidade e entre o povo.  E ele lembrava de imediato de uma história ou de um “causo” que acontecera ali e que poucos do mesmo tinham conhecimento.

Um dia contou o caso do Tião açougueiro, que passara dezoito anos condenado e cumpria pena na penitenciara da Capital.

Contou o Salustiano, para deleite dos ouvintes atentos:

“A Balbina era uma moça muita bonita, de boa família, de bons costumes. Sabia cozinhar muito bem. Era, enfim, uma moça prendada. Porisso, achou casamento relativamente cedo.

“Casou e tudo ia muito bem. Um dia, Balbina levara uma bacia de roupa e fôra lavar no riacho, como sempre fazia. Trabalhou normalmente e estendeu a roupa no próprio pasto, para a secagem.

“Ao entardecer, foi recolher a roupa que estava enxuta e com aquele característico cheirinho de limpeza. Quando fazia o serviço, ouviu uma voz algo estranha, chamando-a pelo nome. Olhou em redor e não viu ninguém. Mas a voz continuava a chamá-la, pedindo que se aproximasse, que nenhum mal lhe aconteceria.

“Balbina quase nem acreditou, quando viu que quem falava como gente e a chamava pelo nome, era um sapo. O batráquio contou que ele estava assim, transformado em sapo, devido a um “trabalho” de feitiçaria que uma bruxa lhe havia feito. Que se Balbina o levasse para casa, lhe desse um banho e o pusesse numa cama com lençol branco e limpo e a seguir lhe desse um beijo, que o “encanto” desapareceria e que ele se retransformaria naquilo que sempre fôra: um príncipe.

“Balbino recolheu o sapo, levou-o para a casa. Deu um banho no sapo, colocando-o na cama com o lençol alvo e limpo, como lhe pedira o estranho sapo. Então, deu-lhe um beijo. Houve uma espécie de estrondo, com uma nuvem de fumaça. Quando desanuviou-se a fumaça estranha, Balbina viu-se à frente com um lindo príncipe...

- Puxa, exclamou o Zezinho farmacêutico – aqui já teve príncipe...

Continuou o Salustiano:

“Tião açougueiro cumpriu pena na cadeia, porque matou os dois...

- Matou os dois? O príncipe também? – indagou novamente o Zezinho.

E o Tio Salustiano:

- Sim, todo mundo viu o príncipe, todo mundo ficou admirado com o fato... mas o Tião açougueiro foi diferente... ele era o marido da Balbina e não acreditou naquilo que todos creram... daí, deu quatro tiros na mulher, dois no homem... e ainda por cima, meteu a peixeira no bucho do príncipe...

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo com data de 1988

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