domingo, 1 de julho de 2012

TIPOS & COISAS E CASOS (17)



Era dia de festa popular: aniversário da “emancipação politico-administrativa” da cidade – como havia discursado o prefeito ao microfone da emissora local.

E o alcaide, jubiloso com a presença do público ao acontecimento – e pensando numa candidatura à deputado – vibrava com todos, cumprimentando alegre todo mundo e realizado com as inaugurações de “grandes obras”, como a construção de uma ponte, que, por sinal beneficiava seu próprio sítio. E também uma nova sala de aula, que igualmente, por sinal, dera um emprego à Pierina, professora leiga, porem bonita e “muito simpática” para o prefeito.

Adelino morava alí, desde a juventude. Abandonara a lavoura, viera para Bananeiral – a cidade que aniversariava – e acabara por aprender a profissão de folheiro. Tinha uma pequena e pobre oficina, onde contava com regular freguesia e conseguia ganhar o pão da mulher e dos três filhos do casal.

Não era muito afeito a festas. Simples, humilde, pacato, quando deixava o trabalho ia sempre para casa. Trabalhava até o anoitecer, inclusive aos sábados. Aos domingos, quando não programava uma pescaria, ia até o bar do Raul, onde batia papo com amigos, jogava uma ou outra partida de sinuca e tomava alguns aperitivos.

Mas aquela noite, Adelino saiu de casa para “dar uma espiada” nos festejos. Fazia parte da programação especial, para a noite, uma demonstração de fogos de artificio e depois uma retreta no coreto do jardinzinho.

Adelino assistiu o espoucar dos fogos, depois foi ver a banda tocar. Ao aproximar-se da banda, vendo os seus integrantes movimentando-se, trocando partituras e afinando instrumentos, Adelino lembrou do Eduardo, seu companheiro de infância e por algum tempo de juventude. Eram grandes amigos e fazia muitos anos que Eduardo falecera. Mas naquela noite, Adelino lembrara-se de Eduardo e o observa da banda trouxera-lhe à mente um fato com os dois acontecido, quando Adelino tinha dezoito anos e Eduardo dezenove.

A lembrança fustigou a mente de Adelino e os pensamentos se acumulavam como aquela gente que alí vinha comparecendo seguidamente.

Lembrou:

Eduardo contou que havia ido passear na cidade e que pela primeira vez conhecera uma boate. Perguntou se o amigo já havia visitado uma boate. Adelino disse que não, que não conhecia e indagou como era.

Contou Eduardo que a boate era uma coisa muito moravilhosa, onde se comia e bebia e que havia mulheres bonitas e música...

Combinaram que no sábado seguinte os dois iriam à cidade e então Adelino conheceria a boate. Adelino ficara encantado com tudo o que ouvira o amigo contar sobre a boate, mas uma coisa o havia intrigado bastante: a afirmativa de Eduardo, que havia gostado muito da privada da boate. “A privada é de ouro, cê vai vê”, complementou Eduardo.

No dia aprazado, foram à cidade. E, como combinado, foram à boate. Eduardo, entusiasmado, contava tudo sobre a boate, numa repetição de muitas vezes e não se cansava em comentar o surpreendente caso da “privada de ouro”, que ele – repetiu – viu, conheceu e chegou até o usar...

Mas era cedo, ainda e a boate estava fechada. Os músicos e as mulheres bem como alguns funcionários da casa, entraram por uma porta lateral, a porta de serviço.

Momentos depois abriu-se o guichê da bilheteria e a seguir a porta principal.

Eduardo comprou os dois ingressos, como ficara combinado. E agarrando Adelino pelo braço, encaminharam-se para o interior da casa.

As mesas estavam todas vazias, como seria de esperar. E Eduardo explicando tudo, como um autentico cicerone.

No palco, os músicos estavam afinando os instrumentos e foi esse pormenor, que, associado ao espetáculo que Adelino via alí no jardinzinho, que trouxe a lembrança do amigo e a recordação do acontecido.

Os dois estravam de pé, olhando para o palco e os músicos e Eduardo continuava a narração informativa.

E aconteceu:

Um dos músicos, olhando para o lado da porta e vendo os dois amigos alí parados, cutucou o colega e disse em voz alta:

- João, ó João... olha lá o cara que fez “cocô” no seu bombarino...
 
Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo com data de 1988

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