domingo, 20 de fevereiro de 2011

Só o cego não enxerga a verdade (20 de fevereiro de 1959)

Tem alguma razão você, compadre N. E..

Nós jamais fomos contra a construção de Brasília. Fomos e somos contra, isso sim, é com o processo com que a Novacap está sendo edificada. Ainda somos caboclos daquêles que desconfiam das exibições do trator moderno e que, posteriormente, verificam que o trator ainda não pode percorrer determinados trechos de roça, que só o enxadeiro pode executar.

No passado, nenhuma Constituição da República deixou em branco a necessidade da mudança da Capital Federal. Nenhuma.

E se você, compadre, nos disse que pretende construir uma casa de um milhão de cruzeiros, só podendo gastar 100 mil cruzeiros por mês, saberemos que se a casa for construída antes de 10 meses, existiu alguma coisa errada, alguma “marmelada” na construção.

Não, não somos contra o sr. JK. Somos contra o atual governo da União.

Somos e somos. E por várias razões. Razões já ditas. E repizadas.

O sr. Juscelino foi e está sendo o pior governo que o Brasil já teve em tôda a sua história, desde que somos República. Só tem uma coisa que êle prometeu e cumpriu com vantagem: Êle prometeu que o Govêrno progrediria 50 em 5 anos e progrediu mesmo. Só que na inflação, na alta dos preços, na sem-vergonhice. A meta, nesse sentido, foi atingida com grande antecipação.

Veja, compadre N. E., um exemplo contundente: O feijão apodrece em cima da terra e não há feijão; e se há, os preços não são para nós. O petróleo dorme em baixo da terra. Os nacionalistas, que nada mais são do que falsos nacionalistas ou comunistas disfarçados, encontram, na sua inviolável covardia, um remédio ou uma válvula de escape: que os americanos não toquem no nosso petróleo, desde que nos enviem feijão e petróleo, ou desde que nos permitam importar os produtos de outras nações.

E, não é “gozação”, compadre N. E.. A situação ficará boa, sem sombra de dúvida. Poderemos em breve importar feijão, petróleo e tudo o mais, à larga, “a la voluntè”; poderemos importar feijão, petróleo, máquinas, matéria plástica, carne, sapatos, couros, etc., etc., e tal. O Brasil, graças a Deus, está montando a maior fábrica de papel moeda da América Latina. Com o dinheiro que for fabricado, poderemos adquirir tudo, até a vergonha. Não precisaremos mais plantar, colher e vender. Teremos meios para importar tudo e até pagar à vista (desde que os outros povos sejam ingênuos e aceitem “Zé Cruzeirinhos” em substituição ao dólar). Teremos mais automóveis, geladeiras, televisores e muitas outras coisas de “primeira necessidade”.

A vida vai ser fácil, compadre N. E., não tenha dúvida. Até agora, Brasília consumiu mais dinheiro do que cimento. Mas daquí há pouco, teremos dinheiro à rôdo, suficiente para construir uma Brasília em cada nação do mundo. E ainda sobrará muito, póde você ter a certeza.

Depois, então, consagraremos nosso Presidente. Ele, de fato, está construindo Brasília. Pensando bem, não está construindo Brasília; está construindo seu próprio nome. Embóra sôbre e a miséria de um povo, é justo que o homem tenha um motivo de consagração. Se não, como justificará ele a sua passagem (passagem é bem o têrmo) pelo Palácio do Catête)?

Sei, compadre, que você não tem nem siquer bicicleta, mas que poderemos nós fazer? “Viscounts” e helicópteros hoje custam muito caro. E, aviões da FAB, só para pequenas viagens ou que levar os filhos ao dentista, dão um “rôlo” dos diabos.

O melhor mesmo é você amargar mesmo com a sua vidinha. Dar duro, “torear” os credores, levar “no bico” o judeu da prestação e ir tocando a vida. A culpa é dos seus pais, compadre N. E.. Quem mandou eles não darem um jeito para você nascer em Minas e ser prefeito de Belo Horizonte? E quem mandou você não comprar terrenos em Goiás e depois ter a idéia de alí fundar uma Capital? Como você vê, o mundo é dos sabidos; portanto, não se queixe.

O melhor que você faz, compadre N. E., é deixar as coisas como estão, para ver como ficam. Você não percebeu ainda, que todos os foram a Brasília e voltaram dizendo maravilhas de lá, ganharam dinheiro para isso? Ou com o comércio lícito, ou com comércio ilícito, ninguém reclamou da Novacap? Mas você já falou de fato, com uma pessoa que viajou sem ser como turista, sem ser como caravanista, sem ser como convidado, sem ser comerciante e sem ganhar dinheiro, que só viajou por viajar, às suas expensas? E você sabe o que essa pessoa disse, se foi sincero, honesto, consciencioso?

Sabe?

Então, estamos conversados, compadre N. E.

Extraído do Correio de Marília de 20 de fevereiro de 1959

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