segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A eterna carestia (28 de fevereiro de 1959)

O problema desafia os argutos, os estudiosos, os técnicos, os legisladores, as autoridades e o Govêrno, principalmente o Govêrno.

Ninguém consegue deter a espiral gigantesca da carestia, assunto debatido, discutido e insolúvel, que classifica o Brasil na abjeta condição de um dos países da vida mais cara do mundo.

Não existe orçamento doméstico capaz de suportar as despesas forçadas ordinárias de hoje em dia, isso, sem contar-se com gastos extraordinários e imprevisíveis.

Todos os governantes, todos os legisladores, confessam-se alarmados com a carestia da vida. Nenhum, entretanto, conseguiu demonstrar pulso, apresentando uma ação ou pelo menos uma sugestão que viesse constituir-se num dique para estancar a roubalheira impiedosa que impera descaradamente por êstes brasis afóra.

O poder civil está desmoralizado, fraco, desprestigiado neste setor. O poder militar inativo, sem ação igualmente, nesse sentido. Em consequência, o povo, o pobre e sacrificado povo brasileiro, continua a sofrer com a condição da maior vitima, de “bode expiatório”.

Discursos, decretos, portarias, promessas, provado está, nada resolveram até aqui. A situação, nesse particular, está verdadeiramente caótica. O “moto contínuo” que constitui o círculo vicioso de ordenados e salários em corrida desabalada atrás da alta de custo de vida, frutifica os exemplos mais degradantes para a vida do próprio país.

E não venham chamar-nos de pessimistas, de derrotistas, ou de maus brasileiros!

“O pior cego é aquêle que não quer ver”.

Ensaiou-se o congelamento de preços, que não passou de um embuste deslavado, a ponto de desmoralizar mesmo a autoridade do próprio Govêrno, cujas normais ditadas foram alteradas e realteradas pelos órgãos incumbidos de tabelar e fiscalizar as cotações.

Falou-se em “marcha contra a carestia”. Financistas dispuseram-se a estudas os motivos da anomalia. E o fizeram com os êrros naturais advindos de trabalhos de muitas comissões oficiais. Porque não estudaram como deveriam, as verdadeiras fontes. A alta dos preços, pensamos, não encontra justificativa ou mesmo atenuantes, em relatórios contábeis, onde se consubstanciam as taxas e os impostos, os selos, as folhas de pagamento e os fretes e carretos. Êsses fatores exercem a sua influência, não restam dúvidas. O êrro, a falha, essa está na origem. Acontece que a origem é o próprio sistema governamental, sob aspectos variados e multiformes.

As comissões técnicas de estudos sôbre a atual carestia de vida, preocuparam-se com relatórios e pareceres, com números e cifras. Mas não cuidaram de observar o espiral inicial de certos comerciantes e o movimento em giro, as condições de certos intermediários, a vida de certas indústrias. Não foram ver as casas dessa gente, as fazendas dessa gente e as casas de campo e de “week end” dessa mesma gente!

Agora, leitor, pense você mesmo sôbre o assunto.

Extraído do Correio de Marília de 28 de fevereiro de 1959

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