domingo, 1 de janeiro de 2012

Aconteceu na Itália (1 de janeiro de 1960)





Fatos pitorescos (oriundos do imprevisto, da coincidência ou da ignorância), marcaram a passagem dos brasileiros na Itália, na última guerra mundial.



De momento, recordamo-nos de alguns, que, nesta oportunidade, vamos transmitir aos nossos leitores:



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Dirigir veículos na FEB não importava possuir carteira de habilitação e sim uma “carta-autorização-especial”. O autor destas linhas não possuía nem um nem outro documento.



Certa feita, com algum abuso, conseguimos sair com um “jeep” de nosso Pelotão. Ao estacionarmos (na mão) na rua principal da cidade de Porretta Terme, ficamos estarrecidos quando um “MP” (“Military Police – Policia Militar) veio em nossa direção. Procuramos logo tentar um disfarce, pois para nós o “MP” era americano e os “MP” americanos sempre foram intransigentes em questões de policiamento. Com um sorriso amarelo, dirigimo-nos ao “MP” e indagamos: “Do not stop here?”. O “MP” olhou desconfiado. Insistimos e perguntamos: “No parking here?”. Ai o “MP” “estourou”:



- “Velhinho”, pode fala o português, pois eu sou brasileiro...



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O terceiro batalhão do 6º regimento de infantaria, sem exagero, foi uma das unidades militares brasileiras mais sacrificadas em combate. Certa feita, transferindo-nos de 3º para o 4º “front” (quatro meses sem descanso e em combate permanente), em marcha de estrada, deparamos com quatro bonitas donzelas. Os soldados todos, há vários meses não viam u’a mulher nem em figuras de revistas. Todos ficaram “assanhados”, mas nenhum podia abandonar as “colunas” que caminhavam nas duas margens da estrada. Gonçalves, um soldado “metido a galã”, não se conteve e “deu a nota”, dirigindo-se às moças, certo, como das vezes anteriores, que as mesmas não entendiam o português:



- Eh, loira! Se eu te pegar eu faço...



E a moça, para espanto geral, retrucou num bom português:



- Pega, nada, seu bôbo; eu também sou brasileira, tá bem?



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Um soldado, de nome David, levara um colóte para a Itália. Tinha sobre a citada peça vestuária, incrível estimação. Mandou lavá-la para guardar no fundo da mochila. Certa tarde, foi buscar a roupa. Mal falando o italiano acabou por meter-se numa “barafunda” dos diabos.



É que “culote”, em regionalismo, significa “calça de mulher” e “lavar” em italiano é o mesmo que “tirar” em português. Pois bem: o David, vendo que toda sua roupa não estava ainda pronta, insistiu com a mulher, em lavar (tirar) o culote (calça). E a mulher deu uma “bronca” que os leitores bem podem imaginar...



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Metido a conquistador, o companheiro Luiz, de uma cidadezinha da Central do Brasil, tinha pouca sorte com as mulheres e pouca facilidade em assimilar o italiano. Para êle, acrescentar a sílaba “re” no final de cada palavra, resolvia perfeitamente a questão.



Certa vez, com o responsável por êstes escritos, Luiz foi parar numa pequena choupana. Para nosso espanto, havia sinal de gente (fumaça na chaminé). Acercamo-nos da casa. Espiamos pela janela (aberta). Vimos u’a moça “estirando” (passando) roupa com um ferro em braza. O Luiz idealizou logo mais uma de suas fracassadas conquistas. E ordenou (êle era sargento e o autor desta história, apenas cabo): “Te guenta, que eu vou salivar a bicha”. Colocou o carão na janela e disse: “Buon giorno”. “Buon giorno”, respondeu a moça.



Habitualmente, as pessoas nessas condições, nos convidavam a entrar, sentar e conversar, mas a moça em questão continuou a “estirar” a sua roupa. E o Luiz voltou à carga: “Buon giorno”. A moça respondeu novamente, sem dar a mínima atenção: “buon giorno”. Aí o Luiz julgou entrar com o seu “jogo” e saiu com esta:



- Io podere pulare janelare e beijare voi?



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Ou do italiano, ou do alemão que dominou a Itália por cinco longos anos na última guerra, a palavra “fique-fique” significava alguma coisa de pejorativo, assim como uma proposta desonesta. Nós ignorávamos o fato.



Certa ocasião, no porão de uma casa onde deveríamos passar a noite, aproveitávamos o ensejo para escrever uma carta para o Brasil. Abrimos a mochila, tiramos uma folha de papel e principiamos a escrever sôbre os próprios joelhos. Da mochila aberta, além da marmita e algumas peças de roupas brancas, contávamos com medicamentos de urgência (sulfa, esparadrapo, etc.) e um vidro de óleo para evitar as picadas dos mosquitos transmissores da malária e outras doenças.



U’a mulher ficara impressionada com o vidrinho referido e julgara tratar-se de algum preparado para o cabelo. E, insistentemente, nos solicitava o referido objeto, exatamente no momento em que estávamos preocupados com nossa correspondência. Tanto a mulher pediu e tanto nos aborreceu, que, num momento qualquer, dissemos explosivamente: “Fique, fique, não amole mais”. Foi a conta. A mulher xingou-nos, destratou-nos, chamou-nos de “maleducato”, “sensavergonha”, etc., dizendo que era u’a mulher séria, u’a mulher casada e muitas outras coisas...



Só mais tarde, uns três meses depois, é que viemos a saber a razão da “bronca” referida...



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Um pracinha, na presença do Papa Pio XII, ao vê-lo todo de branco, alto e magro, cotucou o outro e disse: Puxa, que vara de virar tripa”. Quando repreendido pelo companheiro, retrucou: “Conversa, “velhinho”, êsses italianos não entendem o português. Para espanto seu, o Santo Padre declarou: “Esses italianos podem não entender, mas eu entendo muito bem o português e você está perdoado”.



Extraído do Correio de Marília de 1 de janeiro de 1960

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