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Bate papo com um caboclo (24 de maio de 1983)

Comentei, em especial, um bate papo estabelecido com um caboclo, possivelmente analfabeto de pai e mãe. Como havia dito, em se tratando de um homem de pouca escolaridade, por isso mesmo uma pessoa inculta, mesmo com seu linguajar distanciado da gramática e da pronúncia vernacular exata, vi no caipira um espírito arguto e uma criatura de profundo sentido observatório. Dentre outras coisas e além dos motivos por mim revelados, disseram-me outros pensamentos através de sua palestra espontânea e de certa forma previamente sensata. Por exemplo: - Parece que o eleitorado brasileiro não está ainda convenientemente preparado para a abertura política local. Ele ainda vota em barganha, em coronéis, em pessoas que prometem empregos ou vantagens. - O Governo da Revolução está certo. Quem não está certo é o escalão de seus administradores e ajudantes. Estes, ou ocultam do Governo a verdade, ou distorcem os fatos e informam de maneira errônea, porque não é acreditável que o Gove...

A maioria não (22 de maio de 1983)

Deus fez o mundo em seis dias. No sétimo, descansou, após concluída a grande tarefa. Hoje é domingo, dia de descanso. Para a maioria. Há os que não descansam, que estão no batente, por questões obvias e atinentes de deveres próprios. A maioria, não. A maioria não agarra hoje. Não trampa, como dizem os giriomaniacos. Mas há uma outra maioria. Essa, a que consegue descansar de segunda a domingo, de janeiro a dezembro, ininterruptamente. Esse só engana que trabalha. E que, indiscutivelmente, vive melhor, bem melhor, do que os que trabalham no duro, de sol a sol, de segunda a domingo, de janeiro a dezembro. Como é dia descanso, coluna descansa do rotineiro, de sua linha habitual, de sua conduta normal. Nada de citar-se as altas de preços, as elevações do custo da gasolina. Nada de comentar as teorias do Ministro Delfim Neto, sua numerologia equacional, aquela que sem solução equacionatória para o zé povinho. Zé povinho vai assistir futebol hoje. Santos e Mengo, doi...

A emoção da primeira vez numa redação de jornal (21 de maio de 1983)

Quando, pela primeira vez, fui ter à redação de um jornal, minha emoção se irradiava com a mais absoluta certeza. A expectativa transpirava, mesclada de um certo temor e enorme ansiedade. Levava na mão duas colaborações manuscritas: o fragmento de um miniconto, eivado de um péssimo humorismo e um poema em sextilha – todo calouro em jornalismo ou literatura gosta de escrever poemas e poesias líricas. Seo Eloy era o redator-chefe, o repórter, o revisor, o diagramador do jornal. Tinha que ser um eclético, porque o proprietário do hebdomadário tinha outras atividades e naquele tempo, ser dono de jornal era apenas um “status”, somente que mais elevado e mais dignificante do que ser proprietário de um barra ou um empório. Pediu-me que deixasse os originais, pois ele estava muito ocupado. Que passasse dias após, para saber o que ele pensaria dos escritos. Agradeci, com um sorriso amarelo, e saí. --+-- Dois dias após, voltei ao jornal. Seo Eloy me recebeu de modo diferente. Ma...

1934 ou 1935? (19 de maio de 1983)

1934 ou 1935, era o ano. Não consigo precisar muito bem, pois eu era criança ainda e o enfoque que aqui passarei a referir, não exercia sobre mim nenhum fascínio e nem tão pouco me motivava. Visava-se eleger o Presidente do Estado de São Paulo – naquela época era Presidente e não Governador. Me parece que Júlio Prestes era o candidato forte. O outro, se não me falha a memoria, era o Campos Salles. Isso não importa, deixemo-lo para lá. Os partidos eram dois. O PRP – Partido Republicano Paulista – e o Partido Constitucionalista, PC. Os homens só falavam sobre as eleições. O eleitor, regra geral, era menos culto que o de hoje (1983) . Isto, vale lembrar, que as eleições só poderiam ser bagunçadas e de péssimas escolas. O interesse era o mesmo de hoje: vantagens e empregos. Lembro que um amigo de meu pai, semianalfabeto, que nem siquer sabia o que é um comprimido de aspirina, que nenhuma noção tinha sobre farmácia, laboratório ou medicina, fôra nomeado pelo Governo, Chefe do C...

Pensamento temerário (18 de maio de 1983)

Este pensamento é até algo temerário. Mas, como tem sido invariavelmente acertado, aqui à lume. Matéria esta foi escrita ontem (17/5/1983) , no período matutino. Todo mundo sabia que o Ministro Delfim Neto iria ainda, no mesmo dia de ontem, entrevistar-se com os ocupantes das macias poltronas vermelhas do Senado Federal. Para uma exposição de motivos – o jeito inofensivo e elegante de justificação. O palpite deste pensamento: vai ficar tudo na mesma. Com absoluta certeza, o Ministro chapiscará golfadas de otimismo, pintará tudo cor de rosa e os Senadores, como sempre, ficarão satisfeitos com as explicações – engolindo a isca, o anzol e a chumbada. Só que, cá em baixo, o zé povinho, este não ficará satisfeito. Apenas porque ele, o zé povinho, tem o péssimo defeito de não comer cifras, números, teorias e explicações que lhe não enchem a barriga. Se, em contrário, o resultado for outro, ou, então, inverso, aqui vai a propositura de desculpa em tempo hábil e tempestiva...

Burlando a lei (17 de maio de 1983)

Por certo, em todos os países do mundo muitos habitantes dessas mesmas nações esmeram-se, estudam, colimam e cogitam e acabam burlando as leis. Também, por certo, poucos serão os países onde seus habitantes conseguem perder para os brasileiros. Maninho, aqui “o barato”, o “status”, a “tradição”, o “tradicionalismo”, é infringir, pisotear, desrespeitar e ignorar a lei. Nisso o nacional ganha de goleada, nadando de braçadas. Genericamente falando, entendido fique. --+-- Você entra em um elevador. Tem lá uma plaquetinha com a inscrição “é proibido fumar”. Pode notar, que, invariavelmente, tem um cabeça de bagre com um cigarro senão na boca, pelo menos entre os dedos. --+-- Código Nacional de Trânsito proíbe terminantemente as condições do tipo motocicleta e similares de trafegarem sem o miolo nos canos de escape. Note que o que é mais difícil é perceber-se ou encontrar-se uma motoca com o miolo do escapamento. --+-- Desde 1934, o então presidente Getúlio Dorne...

A liberdade de imprensa (15 de maio de 1983)

O deputado Paulo Mincarone, do PMDB do Rio Grande do Sul, vem de apresentar na Câmara Federal, um projeto oportuno, necessariamente oportuno e que diz respeito direto ao exercício profissional de jornalistas. O referido projeto assegura o acesso de jornalistas profissionais a todos os órgãos públicos e entidades oficiais, independente de licença ou credenciamento de qualquer autoridade. Na exposição de motivos justificadores da apresentação de citada propositura, o parlamentar gaúcho argumentou: “chegou-se a uma forma requintada de cercear a liberdade de imprensa com a cassação  de credenciais e a proibição de circulação de jornalistas em órgãos públicos”. Referido projeto disciplina também o acesso à documentos ostensivos e exclue de sua aplicação os estabelecimentos militares de qualquer natureza e os órgãos e serviços de informação, que exerçam atividades de caráter reservado, sigiloso ou secreto. Muito boa, justa e adequada a medida. Resta que a Câmara a apro...