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TIPOS & COISAS E CASOS (16)

Era região nova, em desbravamento. Carente de recursos. Faltava de tudo, pois era apenas um clarão aberto na mata virgem. Alí, uma dezena de famílias, não mais. Todas provindas do sul, para tentar a sorte no novo Eldorado, a nova Terra da Promissão. Choças de pau-a-pique, ou barrote, como se dizia na ocasião. Cobertas com sapé. Água, de um riacho próximo. Luz de candeeiro à querosene. Criação, no começo, nenhuma. Com o passar do tempo, as famílias mais providentes, foram construindo pequenas hortas. O percurso até o patrimônio mais próximo era longo, coisa de umas três léguas, ou 18 quilômetros. Mesmo assim, sabiam aquelas famílias que o negócio oferecia perspectivas de futuro. As terras foram cedidas por lei estadual, para usufruto completo. Sem financiamento, mas com garantia e quem permanecesse alí por dez anos consecutivos, receberia documento de posse definitiva, com base em lei de usucapião. A fórmula era plantar o que comer primeiro e em seguida cuidar da lavoura c...

TIPOS & COISAS E CASOS (15)

Verdade. Antigamente, ou no entranho – como diziam nossos avós – tudo era diferente. Até os animais falavam. Sim, os animais falavam. Seo Porfiro tinha uma fazendola, que herdara do sogro, um bom lusitano, que além de deixar-lhe toda a propriedade e um montão de dinheiro, legara-lhe a Beatriz, filha única, uma portuguesa de Traz os Montes, muito bonita e prendada. Porfiro e Beatriz eram casados já mais de 8 anos, mas não tinham nenhum filho e esse fenômeno preocupava muito ao Porfiro que sentia o arrepio de medo do futuro, quando ele e a mulher viesse a falecer, sem ter um herdeiro legítimo, para legar-lhe os bens. Por essa razão, Porfiro e Beatriz resolveram adotar um filho e a feliz escolha recaiu sobre um garotinho que eles mandaram buscar numa cidadezinha no interior de Minas Gerais. O garoto não sabia que era ilegítimo, pois, além de ter sido registrado com o nome original dos pais adotivos, ninguém lhe contara e nem contaria nada. O bastardo estava já com cerca de 18...

TIPOS & COISAS E CASOS (14)

A vidinha por alí era sempre a mesma. Apesar de monótona não era cansativa. Pelo contrário, seus acontecimentos corriqueiros eram sempre aguardados com ansiedade. Especialmente aos sábados, pois naquela ocasião na lavoura, com exceção das épocas das colheitas, todos trabalhavam na roça até a hora do almoço. Depois só retornariam ao labor agrícola na manhã da segunda-feira seguinte. Às tardes, os encontros de conhecidos e amigos eram inevitáveis no armazém do João Português. O campo de bocha ficava lotado e precisava até esperar na fila, para conseguir jogar uma boa partida ou participar de um “bate-fundo”. O campo era sombreado por duas fileiras laterais de bonitos bambuzais e os bancos de madeira, fixos ao longo dos dois lados da pista de jogo, constituíam excelente convite para um descanso e longos bate-papos. O João Português tinha dois filhos, que ajudavam no balcão e faziam as vezes de garçons. Para não fugir à regra, um dos garotos se chamava Joaquim e o outro, Manu...

TIPOS & COISAS E CASOS (13)

Tudo estava calmo na fazenda de Anizio Figueira. Éra um sábado à tarde. Os colonos haviam ido à cidade, para as compras do mês. Férias escolares e os filhos do fazendeiro, os três – Mirela, Edson e Álvaro, de 17, 14 e 12 anos, respectivamente – juntamente com a mãe, estavam no litoral, num apartamento de praia que Anizio havia comprado um ano antes. De manhã o fazendeiro havia percorrido a plantação de um talhão de grão de bico. Era uma experiência e a primeira vez que plantava tal tipo de grão. Depois deu uma olhada no mangueirão e observou os porcos de engordo. Chegou em casa, guardou o jipe, lavou o rosto, tomou uma talagada de uma pinga especial, que seu compadre Osias lhe havia enviado de Pernambuco e ficou aguardando a hora do almoço. Lá de dentro, ouviu a voz de Marieta, antiga e fiel empregada e eximia cozinheira: - Seu Anizio, u armôço tá pronto... quando quizé cumé é só avisá... Ele olhou para o horizonte, a vista alcançava uma faixa distinta, que avançava mor...

TIPOS & COISAS E CASOS (12)

Era um arraial. Presunçosamente, havia quem o chamasse de cidade, ou de vila. Mas era um arraial. Com vida própria, porque interligava muitas e pequenas propriedades agrícolas. Tinha seu cineminha, que funcionava aos sábados e domingos. E também uma espécie de posto de gasolina, onde o combustível era trazido em tambores para servir a população. O açougue do Frederico, que matava uma rês por sábado. O posto de saúde, cujo médico vinha uma vez por semana para consultar quem precisasse. Havia também a farmácia do seo Osorio, o campo de bocha do Felipe, o bar do Custódio e o armazém do Salim. O movimento aos sábados às tardes e aos domingos era enorme, pois os sitiantes vinham todos para o arraial. Custódio vendia cervejas, guaranás, cachaça e sanduiches de pão com mortadela. O movimento comercial maior era do Salim. O turco tinha de tudo: arroz, feijão, fumo em corda, enxada, foice, enxadão, óleo, vinagre, banha e toucinho, botinas e tudo o necessário. Tudo era uma família. ...

TIPOS & COISAS E CASOS (11)

Cidade pequena, onde todo mundo sabe tudo, sobre todo mundo. Existem os cochichos, o respeito, e desconfiança, a maledicência. Se alguém via o padre sozinho à noite, já maliciava o que deveria e o que não deveria. Se o Salim da lojinha apresentava alguma melhoria estética e pessoal, já desconfiavam que ele estava roubando muito. Se a mulher do açougueiro andava sozinha na rua, mesmo para fazer compras, não faltava quem cortasse sobre a dignidade da coitada. Mulher que andasse com um decote liberal, por pouquinho que fosse, já era marcada pelos línguas-pretas da cidade. Se o comerciante fosse gentil com uma freguesa, já iria surgir quem pensasse ou quem dissesse algo vergonhoso, inverídico, sofismático ou até pecaminoso da pobre cliente. Fóra isso, cidade normal. De gente boa, ordeira, trabalhadora. Certo de que os buchichos circulavam entre poucos e que eram por isso conhecido nesse sentido, entre poucos também. Como num rebanho: boi preto, com boi preto. Mas existe a...

TIPOS & COISAS E CASOS (10)

Fidelcino era baiano de nascimento. Muito cedo, ficou órfão de mãe e dois anos depois, o pai também veio a falecer. Apareceu uma oportunidade e ele veio de pau-de-arara para São Paulo. Sozinho, mas de boa índole, procurou logo um trabalho honesto. Arrumou emprego de faxineiro num hotel. Alguns meses depois, foi trabalhar como “office boy” de um escritório de despachante. Deixando o cargo de boy, foi ser chapeiro de uma lanchonete. Depois de algum tempo, entrou numa oficina de consertos de eletro-domésticos, mas não ficou só alí. Sua vocação para serviços mecânicos e manuais apareceria sem que ele mesmo esperasse. Um sábado à tarde, uma madame do prédio de apartamentos vizinho, foi até a oficina do patrão de Fidelcino, seu Olegario. Este não estava e a mulher desejava que se fizesse um reparo na máquina de costura que apresentava um defeito. Fidelcino alegou que o patrão não compareceria mais aquela tarde e que só retornaria ao trabalho na segunda-feira. A mulher explicou que es...