segunda-feira, 14 de maio de 2012

TIPOS & COISAS E CASOS (10)



Fidelcino era baiano de nascimento. Muito cedo, ficou órfão de mãe e dois anos depois, o pai também veio a falecer. Apareceu uma oportunidade e ele veio de pau-de-arara para São Paulo. Sozinho, mas de boa índole, procurou logo um trabalho honesto. Arrumou emprego de faxineiro num hotel. Alguns meses depois, foi trabalhar como “office boy” de um escritório de despachante.

Deixando o cargo de boy, foi ser chapeiro de uma lanchonete. Depois de algum tempo, entrou numa oficina de consertos de eletro-domésticos, mas não ficou só alí. Sua vocação para serviços mecânicos e manuais apareceria sem que ele mesmo esperasse.

Um sábado à tarde, uma madame do prédio de apartamentos vizinho, foi até a oficina do patrão de Fidelcino, seu Olegario. Este não estava e a mulher desejava que se fizesse um reparo na máquina de costura que apresentava um defeito.

Fidelcino alegou que o patrão não compareceria mais aquela tarde e que só retornaria ao trabalho na segunda-feira. A mulher explicou que estava com um serviço para terminar e que tinha que fazer a entrega ainda naquela tarde. E pediu ao rapaz que fosse com ela ver se conseguiria atinar com o defeito da máquina. O moço alegou que ele nada entendia de máquinas de costura, mas ante a insistência da madame, decidiu ir ver. Apanhou um alicate e algumas chaves-de-fenda e acompanhou a mulher.

Chegou, ouviu a madame explicar como acontecera o defeito, olhou e examinou com cuidado o aparelho e tentou fazer alguma coisa. Ao observar, notou que o recipiente da “canelinha” estava com um parafuso bambo e em consequência desajustado. Desmontou, limpou, montou e apertou regularmente a peça. Pediu para a mulher experimentar e esta ficou felicíssima, porque o serviço ficara perfeito.

Na segunda-feira, a mesma mulher, juntamente com outra, procuraram o seu Olegário. A primeira contou que o garoto havia feito o serviço à contento e que a acompanhante também tinha um problema igual em sua máquina de costura. O mecânico, inteirado do caso, determinou ao Fidelcino que fosse ver o defeito. Fidelcino foi, achou a falha e conseguiu consertar.

Em pouco tempo, inclusive contactando com um mecânico de máquinas de costura, Fidelcino foi tomando gosto e aprendendo o novo oficio. Ficou capaz e famoso.

Já estava com mais de vinte e cinco anos, muita prática e teve idéia de tentar a vida por conta. Mudou para o interior. Alugou uma portinha que fôra uma garagem residencial e alí se instalou.

Vidinha simples, serviço aparecendo, Fidelcino vivendo. Tempo passando e a idade avançando.

Estava escrito.

Apareceu a Otavia, para consertar uma máquina de costura. Ele conhecia Otavia de vista. Era a mais velha de três irmãs solteiras, que moravam com o pai viúvo, ferroviário aposentado. Otavia era muito educada e até então Fidelcino nunca havia notado que ela era bonita, uma balzaquiana no ponto de casar.

E sem que ele esperasse, começou o namoro.

O pai de Otavia morreu e o acontecimento precipitou o casamento dos dois. Ele foi morar na casa do pai da mulher e lá ficaram também as outras duas irmãs da esposa, portanto suas cunhadas.

Do casamento nasceu um filho, que foi o único, o Francisco Carlos.

Francisquinho – assim era chamado o filho do casal – acabou criado com muito mimo e com o carinho permanente das tias solteironas. Tinha tudo o que pretendia, desde boa escola até boas roupas, bicicleta e bons brinquedos.

Ficou, porisso mesmo, pretencioso e sofisticado. Fidelcino discordava com muita coisa, mas nada podia fazer, pois a mãe e as tias se revoltavam contra ele, na defesa do garoto.

O tempo passando e chegou a época da prestação do serviço militar. Francisquinho foi designado para fazer o Tiro de Guerra numa cidade próxima. Sempre a mãe, ou uma das tias, as ambas as tias e a mãe junto, levavam de carro o novo soldado do Exército e depois iam novamente reconduzí-lo para casa.

Ia se aproximando o Dia da Pátria, que as Forças Armadas comemoram com pompas e paradas militares. Tempos antes, as mães e as tias exultavam com ansiedade, aguardando o momento de ver o Francisquinho desfilar com a tropa toda, com o fuzil no ombro.

Fidelcino estava cansado e com o saco cheio de tanto ouvir a mulher e as cunhadas falarem do desfile. Mas sabia que tinha que ir, não tanto para o filho desfilar, mas especialmente para nunca mais ouvir os chiados da Otavia e das cunhadas solteironas.

Chegou o grande dia.

Por influencia de uma das tias de Francisquinho, que era conhecida do Prefeito da cidade, a família conseguiu lugar no palanque oficial, junto com todas as autoridades.

Desenvolveu-se o desfile, com entusiasmo e muitos aplausos. E a família regressou.

A mulher só falava nisso, no fato do desfile. E, olhando nos olhos de Fidelcino, observou orgulhosa:

- Cê viu, querido? No meio de tantos soldados, todos eles marchando com o pé errado e só nosso filho marchando com o pé certo?

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo com data de 18/8/1988

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