domingo, 17 de junho de 2012

TIPOS & COISAS E CASOS (15)


Verdade. Antigamente, ou no entranho – como diziam nossos avós – tudo era diferente. Até os animais falavam. Sim, os animais falavam.
Seo Porfiro tinha uma fazendola, que herdara do sogro, um bom lusitano, que além de deixar-lhe toda a propriedade e um montão de dinheiro, legara-lhe a Beatriz, filha única, uma portuguesa de Traz os Montes, muito bonita e prendada.

Porfiro e Beatriz eram casados já mais de 8 anos, mas não tinham nenhum filho e esse fenômeno preocupava muito ao Porfiro que sentia o arrepio de medo do futuro, quando ele e a mulher viesse a falecer, sem ter um herdeiro legítimo, para legar-lhe os bens.

Por essa razão, Porfiro e Beatriz resolveram adotar um filho e a feliz escolha recaiu sobre um garotinho que eles mandaram buscar numa cidadezinha no interior de Minas Gerais. O garoto não sabia que era ilegítimo, pois, além de ter sido registrado com o nome original dos pais adotivos, ninguém lhe contara e nem contaria nada.

O bastardo estava já com cerca de 18 anos, havia estudado regularmente e o pais se preparava para mandá-lo estudar em Coimbra, trazendo de lá um honroso diploma de bacharel em ciências jurídicas.

Mas, voltando à pingela da ponte, os animais falavam.

Às vezes Porfiro ficava tempão ouvindo as conversas dos bichos. Um dia o cachorro Duque discutia com o burro Brioso e o Duque sacou:

- Você é burro, tem que ser burro mesmo. Tem que puxar carroça para servir o dono. Sua sina é morrer burro.

Mas o brioso nem se agastou e com o vozeirão de um burro velho e experimentado, retrucou:

- Sim, eu sei que sou burro e sinto até orgulho disso. Trabalho, sou bem tratado e bem alimentado e tenho a noite livre para descansar. Além disso, nos domingos, feriados e dias-santos, fico folgado, enquanto você, que é cachorro e que de cachorro não passa, tem que guardar o dono, guardar a casa, latir a noite inteira, catar pulgas e ainda fuçar restos de lixo e comer sobra que os patrões jogam...

O Duque enfesou e ameaçou agredir ao Brioso, mas o Porfiro que estava próximo, aparteou, dizendo:
- Chega de conversa mole. Cada um é o que é e pronto. Vão tratar de suas vidas, vão...

Um dia chegou à fazendola, a Aparecida Maria, sobrinha da mulher de Porfiro, que residia e estudava na Capital. Raramente ela vinha ao interior e quando o fazia recebia um tratamento muito especial por parte dos tios e também do priminho, o Manuel Joaquim – que nem a Cida sabia que era adotivo.

Aparecida Maria andava pelas imediações e conversava com o cachorro Duque, com o burro Brioso, com as vacas leiteiras e com as cabras e os porcos. Batia longos papos com os animais, contava casos da cidade e se informava sobre a vida dos irracionais alí na fazendola do tio Porfiro.

Ela gostava dos animais e os animais também gostavam muito dela, pois era uma moça educada e de fino trato, que tinha um bom papo para qualquer pessoa ou animal.

Uma noite, ela disse ao tio que queria aprender a ordenhar uma vaca. Como o serviço de ordenha era feito bem cedinho pelo retireiro Oscar, o tio aconselhou que ela tirasse o leite depois que levantasse e tomasse café. Para isso, iria dizer ao Oscar deixasse a Mimosa sem ordenha. A Mimosa era uma vaca muito mansa e compreensiva e a menina iria se dar bem com ela.

Porfiro explicou como se fazia a peia, isto é, o amarrio das patas do animal, durante a operação da ordenha. E os detalhes outros, como o banquinho para sentar, o balde para apanhar leite, etc.

Aparecida Maria chegou ao curral por volta das nove horas. Oscar havia deixado não só a Mimosa, mas também outras rezes, para não entediar a vaca a ser ordenhada, se ficasse sozinha presa.

Feliz e cantando, Cida chegou, peiou o animal, ajeitou-se toda, alisou a pela e bateu carinhosamente na barriga da rês, dizendo com carinho:

- Mimosa, você vai ter uma surpresa... eu nunca tirei leite...

E a Mimosa respondeu, então:

- Surpresa vai ter você... eu não sou a Mimosa... eu sou o touro...

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo com data de 19/8/1988

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