domingo, 27 de maio de 2012

TIPOS & COISAS E CASOS (12)


Era um arraial. Presunçosamente, havia quem o chamasse de cidade, ou de vila. Mas era um arraial. Com vida própria, porque interligava muitas e pequenas propriedades agrícolas.

Tinha seu cineminha, que funcionava aos sábados e domingos. E também uma espécie de posto de gasolina, onde o combustível era trazido em tambores para servir a população. O açougue do Frederico, que matava uma rês por sábado. O posto de saúde, cujo médico vinha uma vez por semana para consultar quem precisasse. Havia também a farmácia do seo Osorio, o campo de bocha do Felipe, o bar do Custódio e o armazém do Salim.

O movimento aos sábados às tardes e aos domingos era enorme, pois os sitiantes vinham todos para o arraial. Custódio vendia cervejas, guaranás, cachaça e sanduiches de pão com mortadela.

O movimento comercial maior era do Salim. O turco tinha de tudo: arroz, feijão, fumo em corda, enxada, foice, enxadão, óleo, vinagre, banha e toucinho, botinas e tudo o necessário.

Tudo era uma família.

Havia um soldado da polícia permanentemente ali, para manter a ordem. Era uma espécie de delegado. Na casa em que ele morava e que era custodiada pela sub-prefeitura, havia um quartinho qual uma cela, que era conhecido como “cadeia”. Sempre desocupado e mui raramente um ou outro alí “guardado” para curar a carraspana.

O sub-prefeito era o seu Osório, o farmacêutico. Mas não havia nenhum trabalho para ele, a não ser visitar o prefeito uma vez por mês, fazer um relatório e reivindicar melhorias que nunca aconteciam.

No armazém do Salim havia outro atrativo que era o jogo de bicho. Ele mesmo organizava e bancava o jogo. Só valia o grupo do bicho e era o dalí, diferente da cidade, mesmo porque o da cidade tardava muito para chegar o resultado.

O Salim, não. Ele bancava o bicho, diariamente.

Do seguinte modo: um cestinho desses do tipo de coleta de ovos, era a urna. Estava amarrado por um cordel que passava por uma pequena carretilha, presa ao madeiramento do telhado.

O turco escrevia num papelzinho o nome do bicho que iria dar aquela tarde. Ninguém via o que o Salim escrevia, mas via ele colocar o papel no cestinho que em seguida era erguido, o cordel preso na prateleira e só quando “ia correr” é que baixava o cestinho e a gente ficava sabendo o bicho que “tinha dado”.

A turma jogava adoidamente. De vez em quando um ou outro ganhava, mas na verdade, quem mais ganhava era o turco.

Um dia, alguns amigos resolveram estabelecer um “comprot” para quebrar o bicheiro. E ficou combinado: o dia em que um desconfiasse ou tivesse certeza do nome do bicho que o Salim escreveria no papelzinho, contaria em sigilo para os outros e todos jogariam naquele bicho. Seria uma espécie de fórra e vingança, por tudo quanto haviam perdido e por tudo quanto o turco havia ganhado à custa dos trouxas.

E aconteceu.

Leôncio havia machucado um braço e estava sem poder trabalhar.

Propositadamente e com cara de bobo, Leôncio ficou vários dias alí no armazém, tentando descobrir que bicho iria ser escrito. Um dia, quando Salim ia escrever o nome do bicho, Leôncio, de rabo de olho, percebeu que o bicho escrito pelo turco começava com a letra “B”.

Sorrateiramente, espalhou o fato e todos raciocinaram: bicho do jogo que começa bom a letra “B” existem dois, o burro e a borboleta.

E a turma largou o pau jogando no burro e na borboleta. Salim fazendo o jogo. Chegava mais um e dizia:

- Salim, jóga 50 mil réis na borboleta e 50 mil réis no burro.

E assim por diante.

Conforme combinado pelos complosistas, Leôncio não arredou os pés do armazém, para evitar que Salim fizesse alguma tramoia e mudasse o resultado. E perguntavam-lhe se ele estava certo de que o turno não havia mexido no papelzinho escrito. “Di jeito nenhum... vi cum estes zóio que a terra hai di cumê” – afirmava convicto o Leôncio.

Todos pensavam: “É hoje qui u turco vai si fornicar todo”.

Perto das quatro horas, começaram a pedir para sair o bicho. E o Salim respondia: “Cêdo, inda... dá tembo brá otros bissôa jogá”.

Turma impaciente. Tempo passado. Até que Salim anunciou que o bicho iria “correr”. Todo mundo em suspense, lembrando que o Leôncio havia visto a letra “B” no começo da palavra e que todo mundo havia pregado fogo no burro e na borboleta.

Salim desceu o cestinho. A turma aproximou-se ansiosa.

O turco abriu o papelzinho e declarou com um amplo sorriso:

- Deu birú.

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo com data de 18/8/1988

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