segunda-feira, 4 de junho de 2012

TIPOS & COISAS E CASOS (13)



Tudo estava calmo na fazenda de Anizio Figueira. Éra um sábado à tarde. Os colonos haviam ido à cidade, para as compras do mês.
Férias escolares e os filhos do fazendeiro, os três – Mirela, Edson e Álvaro, de 17, 14 e 12 anos, respectivamente – juntamente com a mãe, estavam no litoral, num apartamento de praia que Anizio havia comprado um ano antes.

De manhã o fazendeiro havia percorrido a plantação de um talhão de grão de bico. Era uma experiência e a primeira vez que plantava tal tipo de grão. Depois deu uma olhada no mangueirão e observou os porcos de engordo. Chegou em casa, guardou o jipe, lavou o rosto, tomou uma talagada de uma pinga especial, que seu compadre Osias lhe havia enviado de Pernambuco e ficou aguardando a hora do almoço.

Lá de dentro, ouviu a voz de Marieta, antiga e fiel empregada e eximia cozinheira:
- Seu Anizio, u armôço tá pronto... quando quizé cumé é só avisá...

Ele olhou para o horizonte, a vista alcançava uma faixa distinta, que avançava morro acima, para deter-se na copagem de um capão de mata virgem, que se ligava ao fundo azul do céu límpido.

Do lado esquerdo, em franco declive, uma pastagem bonita, verde claro, poucas e pequenas árvores, com manchas esparsas de grupos de bovinos. Além, mais em baixo, aquela fila indiana das 32 casas dos colonos.

Nos fundos da casa, o grande terreiro, a tulha altaneira, o galpão para a guarda dos tratores e máquinas. Além, a cocheira e o curral e mais abaixo ainda, o grande mangueirão, com porcos, cabras e carneiros. No pequeno piquete, os animais cavalares de serviços e de montarias.

Anizio soltou uma deliciosa baforada de cachimbo. Ele fumava cachimbo, quando tinha folga, estava feliz e tranquilo, ou com a “moringa fresca”, conforme dizia.

Pensou que era feliz, sim. A mulher boa, prendada, com saúde, meiga, boa esposa e boa mãe dos filhos. Os filhos, bons, perfeitos, mental e fisicamente, estudiosos, sem nunca terem lhe arrumado qualquer complicação. Tudo corria bem. Seus empregados e colonos estavam satisfeitos, eram bem pagos e os que pretendiam dispunham de pequenas áreas de terras para plantar alguma coisa “prô gasto”. Sua conta bancária era excelente, seu crédito éra especial.

- Vô almoçar, que tudo está bem, bem mesmo – pensou. Levantou-se, sentou-se à mesa e comeu satisfatoriamente.

Cochilava numa cadeira “preguiçosa” depois de ter almoçado. Foi quando ele chegou. Um rapazinho escuro, magro, de olhos grandes e vivos. Falou:

- U sinhô é seu Anizio, né? Mi faláru muito du sinhô i cumo eu tô sem serviço, vim pidí imprego...

Anizio não precisava de empregado, mas como era cortes e estava tranquilo e até um tanto triste com a solidão, mandou o rapaz entrar e sentar alí na varanda.

- Eu si chamo Pedro, mais pódi mi chama di Pedrinho... vim di Água Branca... trabaiei lá quatro anos cum u seo Alencar Oliveira, acho qui u sinhô cunhéce...

Sim, Anizio conhecia o Alencar, por sinal uma boa praça.

Conversa vai e conversa vem, ficou acertado de que o Pedrinho trabalharia alí até encontrar outro emprego melhor. O rapaz disse que fazia de tudo na fazenda. Combinou em ir buscar a tralha e comparecer na segunda-feira bem cedinho.

Dito e feito. Na segunda-feira cedo, Pedrinho apareceu. Anizio mostrou-lhe um quartinho ao lado do galpão e deu ordem à Marieta para aumentar o almoço para uma pessoa a mais.

Fazia uns dez dias que Pedrinho trabalhava alí. Éra bom de serviço, mas tinha um inconveniente: falava muito, contava muita bozófia. Isso não agradava ao Anizio, que costumava ser de poucas palavras e falar objetivamente e só o necessário.

Anizio mandou Pedrinho ir até o sítio vizinho do Chico Furtado pedir que ele mandasse o Zé Pião, para domar um potro que o Anizio considerava em estado de montaria. No regresso, Pedrinho trouxe a notícia de que o Zé Pião havia viajado para Minas, para visitar a mãe, que estava doente.

O fazendeiro pensou um pouco, chamou Pedrinho e disse:

- Amanhã você vai domar o potro Faisca.

O Pedrinho estranhou, empalidecendo. E disse:

- Seo Anizio, eu nunca muntei num potro...

E o fazendeiro, ignorando a suplica, respondeu:

- Não tem importância... o potro também nunca foi montado... assim vocês dois vão aprender...

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo com data de 19/81988

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