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Recursos e médias (31 de agosto de 1976)

Piada, esta: No quartel. O sargento vê uma cadeira à entrada da porta da Casa das Ordens, impedindo o livre trânsito. Olha enfezado para o primeiro soldado que alí passa em serviço e pergunta: - Quem foi o animal que deixou essa cadeira alí na entrada? E o soldado, perfilado, respondeu: - Foi o coronel, sargento. No mesmo instante ia passando um tenente e o sargento, berrando nos ouvidos do soldado: - Três dias de xadrez, por ter chamado o coronel de animal. --:-- Foi um recurso, uma saída, essa do sargento. Nada honesta, mas foi uma saída, porque ele ficou com a barra limpa perante o tenente, ficou com um falso defensor do coronel, à custa do pobre soldado, que teve que puxar três dias de xadrez. Por um lado, o recurso. Por outro, a média. É o que fazem muitos, por aí. Mesmo aquí em Marília. O recurso, desde que não seja em prejuízo de outrem, é válido, denota presença de espírito, reflexo e inteligência. O que não ...

A carta do Policarpo (28 de agosto de 1976)

Compadre, recebi hoje sua carta e fiquei satisfeito com as notícias de que todos por aí estão bem de saúde. Nós aquí vamos remando a vida, apesar de continuar sempre a bater no mesmo prego. --:-- Estive refletindo sobre sua dissecação política e acabei concluindo que você tem muita razão. Aquí em Marília acontece o mesmo fenomeno por você citado, com referência aos candidatos que põem as manguinhas de fora. De fato, conforme disse você, o bisturi que a Revolução lancetou aquela enxurrada de partidos políticos, para permitir que apenas dois tivessem vida, não apresentou, sob certos aspectos, os resultados que seriam esperados. O negócio ficou mesmo qual certos time de futebol varzeano: trocaram-se as camisas, mas os jogadores continuam os mesmos. --:-- Você tem razão: os subversivos, os agitadores, os conturbadores da ordem, os comunistas, correram e filiaram-se no emedebê. O partido da oposição tem gente boa, é claro. Mas aqueles que eram contrários ao re...

Reminiscencias radiofônicas (27 de agosto de 1976)

Há muitos anos. Estádio do Pacaembú, lotado. Campeonato paulista. Jogo: Palmeiras e Santos. --:-- Com Fiori Giglioti, Edson Leite e Enio Rodrigues, fui ao referido Estádio. Eles, para trabalhar. Eu, para assistir o cotejo. --:-- Mario Moraes era a “vedette” da radiofonia paulistana, em termos de comentarista esportivo. Pedro Luiz era o “cobra” da narração de todo e qualquer tipo de modalidade desportiva. Ambos pertenciam à Rádio Panamericana de São Paulo, hoje Jovem Pan. --:-- Edson Leite, o moço que havia iniciado-se em Bauru, era “o bom” da Rádio Bandeirantes. No interior, era o segundo em audiência  porque o primeiro era Pedro Luiz mesmo. --:-- Wilson Brasil e Geraldo Tassinari davam as cartas na Nacional de São Paulo. A Tupi não participava com grande presença no futebol e a Difusora tinha Aurélio Campos e Geraldo Bretas como titulares. --:-- Mario Moraes ficava sozinha, na frente das cabines de imprensa, destacando-se e d...

Uma coisa puxa outra… (26 de agosto de 1976)

O assunto em pauta nestes últimos dias tem sido o trabalhar ou não trabalhar aos domingos. Mas o fato é que ninguém trabalha, mesmo. Vejamos: O ano tem 365 dias. O dia tem 24 horas. A gente trabalha apenas 8 das 24 horas do dia. Portanto, 1/3 do dia de trabalho. Ora, 1/3 de 365 dias são 121 dias. Restam 244 dias para o trabalho. Menos dias santos e feriados, que são 29, ficam 215. De 215 dias, tiram-se 52 domingos, ficando 163 dias para o trabalho. Desses 163 dias diminuem-se 26, representados por faltas ou pequenas viagens, ficando 137. Menos 30 dias de férias, ficam apenas 107 dias para trabalhar. Menos Natal, Ano Novo, Semana Santa, carnaval, aniversário da cidade e outras datas, somam 32 faltas, restando 75 dias para o trabalho. Aos sábados trabalha-se apenas meio dia e como 48 sábados no ano representam 24 dias, ficam restando 49 dias. Desse número, a gente falta 48 por motivos de ficar nas filas do Inps, de matricular os filhos na escola, etc., restando apenas um d...

A carta do Policarpo (25 de agosto de 1976)

Pois é assim, compadre. Aquí é um contrasenso gritante. De um lado, a cidade desenvolvendo-se, graças à sua ciclópica administração municipal; de outro, fazendo como o caranguejo  andando para traz. --:-- Época de eleição é um inferno, fazendo a personalidade e as ações de muitos homens, mudarem qual birutas de aeroporto. E acabou acontecendo mesmo aquilo que eu falei na minha última carta: vários ramos comerciais, especialmente os supermercados, estão agora fechando aos domingos. --:-- O assunto foi muito comentado. Domingo passado, não houve quem não fizesse um “comentário” sobre a Câmara e a Associação Comercial. Disse-me o compadre Fidencio que ele e mais outros estão tratando de arregimentar aqueles marilienses que trabalham contra a construção do Viaduto da Rua 9 de Julho e formar um grupo para reforçar os que lutaram pelo fechamento do comércio. Esse grupo vai deliberar outros fechamentos, pois assim a medida ficará generaliz...

Presente de grego (24 de agosto de 1976)

Em quase todos os Estados norte-americanos o comércio fecha suas atividades às 22 horas. Em São Paulo existem supermercados que funcionam vinte e quatro horas, todos os dias. Isto é, não fecham durante a noite. Outros estabelecimentos comerciais paulistanos permanecem abertos até às 23 ou 24 horas, inclusive nos dias de domingos. --:-- Determinados ramos comerciais precisam funcionar todos os dias. O povo necessita de facilidades e de conforto, além de ser merecedor de bons serviços prestados. É contigencia do próprio progresso e do desenvolvimento da éra. Porisso, se não pode conceber que uma cidade como Marília, séde de uma região administrativa do Estado líder da Federação, venha a apresentar autêntico retrocesso em sua própria vida, com o fechamento de determinados estabelecimentos comerciais nos dias de domingo. É incrível. --:-- Para alguns comerciários, o fechamento de determinados ramos aos domingos nada mais vai representar do que um aute...

E agora, José? Quid prodest? (21 de agosto de 1976)

Quid prodest? – é uma locução latina que significa o mesmo do que “de que serve?” ou ainda “que adianta?” --:-- A partir de amanhã o comércio de Marília estará morto. A cidade amanhacerá triste, com um ar de abandono, sem aquela graça e aquela vibração que sempre Marília teve, desde que aquí aportaram os primeiros pioneiros de teu progresso. Bento de Abreu iria ficar triste e aborrecido, com a cidade que ele tanto amou e que, nesta fase em que o Brasil vai para a frente, Marília, por vontade própria, vai para traz. --:-- Não se pode fazer prevalecer interesses de uma só parte. Não somos contra a honrada classe comerciária, mas não podemos compreender que se preocupe somente com esta, sem considerar a outra, que é a classe consumidora. E esta foi grandemente prejudicada. As donas de casa estão prejudicadas. Os homens da lavoura estão prejudicados. Eles não compram em supermercados, mas compram em “Varejões”, no próprio Mercado, em armazéns de bairros de saldos...