quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Porque matei (Natal de dezembro de 1973)


Conto de José Arnaldo, especial para Edição de Natal – 1954 

Na lufa lufa comum e cotidiana da grande cidade, o povaréu corre apressado em direções diversas. Apático e indiferente ao borborinho de vidas que tenho em redor, como um perdido na mole humana, caminho eu, qual um autômato errante. Modestamente vestido, com uma fatiota um tanto fóra de uso, um surrado chapéu na cabeça, sapatos sem cordões e u’a mala pendurada na mão direita, vou andando, aereamente, à esmo, sem destino pré-fixado, sem a mínima preocupação para com a agitação das gentes que domina as ruas. Quase não me apercebo do trânsito barulhento e incessante. Meu olhar é morto, transpirando exaustidão. Minhas afeições são pálidas, sulcadas de rugas indeléveis, semi-ocultas por uma barba de dois dias, documentam uma vida de sofrimentos precoces. Meu andar é incerto, atabalhoado, inseguro. Meu destino parece claudicar, sem ponto certo de direção aparente. Até em minha mão, crispada como uma garra sôbre a alça da malha vermelha e anti-estética, a minha indecisão está patente. Tenho, em aparência, dez anos mais do que na minha certidão de idade.

Chego a uma esquina, parando indeciso por momentos; retomo o passo, automaticamente, ainda titubeante, como que com medo. Sigo em frente, atravessando a rua, direção à uma praça pública. Árvores frondosas protegem os bancos de granito madreperolado, sombreando-os. Nos canteiros, outrora bem cuidados, campeia a mescla de cascas de frutas, caixas vazias de fósforos e cigarros, papéis abandonados e folhas de árvores. Pequenos pássaros, salpicam a paisagem, aqui e ali, mudando de pontos, quando sêres humanos se avizinham. Vendedores ambulantes apregoam frutas e refrescos. Engraxates maltrapilhos, vendem sujeira e trabalham em algazarras. Fotógrafos típicos de jardins e portas de igrejas, com idosas máquinas ladeadas de retratos-modêlos, completam a vida do característicos logradouro. Nos bancos públicos, pessoas conversam.

Paro, como se fôsse um turista num país desconhecido; lobrigo um lugar vago, dirijo-me até êle, sentando-me; abandono ao lado, no chão de “petit pavê”, a velha mala; cruzo as pernas, recostando-me para traz, braços abertos e cotovelos apoiados sôbre o espaldar do banco, abandonando o olhar pusilânime no azul do céu, em alguns pontos tintos de fumaça das fábricas.

E penso:

Há nove anos que aguardei, com ansiedade inalienável, êstes momentos de liberdade. Nove anos de sofrimentos, de angústias, de desesperos, em silêncio, numa luta titânica de submissão e estrangulamento de meu próprio coração, sem protestos, sem queixas ou lamentações. Nove anos de penitenciaria!

Eu, que desde pequeno havia sonhado com um mundo de felicidade, uma felicidade simples e completa, à meu modo, vi, por um inexorável golpe do destino, o catastrófico desmoronamento de minha própria vida, como uma antevisão do transcorrer de meu próprio funeral. Eu, que alimentei carinhosamente, desde jovem e inexperiente, a ilusão de casar-me e constituir família, amparando na velhice o meu querido pai, vi-me, de um momento para outro, tropeçando no meu próprio destino, cometendo um crime de morte e passando a minha mocidade na prisão!

Nove anos de angustiosa expectativa por esta ocasião, quase dois lustros de ansiedade, de desespero, de lutas revoltas contra a própria razão, de férreo auto-controle pessoal, e, agora, chegado o tão esperado momento, chego a considerá-lo indesejável, inoportuno. Sou um covarde ou um vencido. Tenho medo da realidade.

 Dos catorze anos que me foram sentenciados, por um júri de velhos taciturnos e sonolentos, em que um inexperiente advogado de defesa, designado por mercê do próprio Juízo, foi impotente e inépto para derrubar a argumentação de aço de um quase satânico e hábil promotor público, que me apontou como um autêntico e profissional criminoso, como um monstro, cinco me foram perdoados por indulto, “como prêmio à excepcional conduta”. Dá-me asco a recordação. Eu, Isidoro Marques, de uma tradição pobre, porém briosa, sem manchas de antecedência, fui indultado por bôa conduta na prisão! Nos últimos dias de presídio, quando a novidade chegou ao conhecimento dos detentos, fui o centro de convergências obrigatórias da casa. Até invejado fui. E, com que desprazer, obrigado várias vezes, a ouvir, do próprio Diretor, nas formaturas de revista diária, elogios, endeusamentos, nomeações “ad-hoc” de exemplo vivo para os demais encarcerados!

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Tudo começou há dez anos pretéritos. Um longo período. Um lapso de tempo carregado de amarguras e desespero, de descrenças do próprio mundo, de nojo das injustiças dos homens, da prepotência do dinheiro. Matei um homem. Mas... matei um homem? Cometi, realmente um crime que bem justificasse catorze anos de cárcere? Não, não foi bem isso, pois na balança do reconhecimento abalizado, duas bôas ações deveriam apagar u’a má ação. E foi o que eu fiz. Prestei mesmo dois serviços relevantes: vinguei a morte covarde e brutal de meu velho pai e aboli da sociedade, simultâneamente, um cafajeste, ladrão, vagabundo e contumaz desordeiro. Tenho a certeza disso. E não me arrependo. Indigna-me, isto sim, a própria sociedade, que, hipocritamente, ao envez de medir com o metro da razão e sensatez as devidas proporções dos fatos, apontou-me como um verdadeiro bárbaro, como um calejado criminoso, condenando-me.

Minha velha mãezinha, de há muito, quando eu era ainda mui pequeno, faleceu por deficiência de recursos médicos. Fiquei, então, só, com meu velho pai extremoso, devotado, que jamais quisera casar-se, conforme sempre afirmava, para não dar-me u’a madrasta. Não pude educar-me convenientemente, mas as derrapagens inóspitas do caminho da vida, haviam curado em mim, uma adolescência extemporaneamente madura. Conclui, com sacrifício, apenas o curso primário, em escola rural mantida pelo Estado. Mal saído dali, lancei-me ao trabalho, ajudando meu velho pai. Assim cresci, muito distante de conjecturar o meu futuro. Apesar de tudo, era feliz. Levava uma vida rude, trabalhando na lavoura, enquanto meu pai, com a carroça puxada pelo cavalo “Pingo”, transportava para a cidade, onde vendia, frutas e legumes, de cuja renda subsistíamos. Doente e velho, nada mais do que isso lhe seria permitido realizar, e, não sem sacríficos. E assim íamos vivendo, até que um dia – a lembrança me é nítida e cristalina – tivemos aquele golpe desolador: roubaram o “Pingo”!

Num canto da cerca, entre dois mourões, o arame havia sido cortado, criminosamente, a golpe de alicate. O velho ficara desolado. Eu, sem saber o que fazer. Sem o cavalo, como faríamos para continuar vivendo? Comprar outro, na ocasião, não era possível, pois a safra do ano anterior foram grandemente prejudicadas pelas rudes estiagens e renda geral obtida não fora suficiente nem sequer para pagar a metade dos compromissos assumidos durante o exercício. Ademais, o “Pingo” era como se fosse a terceira pessoa de nossa família. Manso, amestrado, de confiança no serviço, era até pretendido pelos fazendeiros vizinhos.

Meu pai estava inconformável. Uma tarde, quando nos encontrávamos sentados na soleira da porta, debulhando milho para o próximo plantio, o velho me dissera:

- Meu filho, Deus que me perdoe, porém ninguém me tira da cabeça que o ladrão do “Pingo” não é o Zé Preto. Hoje o malvado passou por aqui, quando você não estava. Sorridente, alegre, gentil, fez questão de falar várias vezes no animal, como se estivesse esgaravatando uma ferida em meu peito. Fez crescer como um bambu as minhas suspeitas. Convidei-o a ir comigo, procurar o cavalo roubado. Aceitou. Tenho a certeza de que cometerá um gesto qualquer de contradição e se trairá, para que eu descubra o roubo...

- Mas – atalhei eu – isso é uma imprudência: o senhor sabe que ele não presta, que é um elemento perigoso e capaz de qualquer desatino, se, de leve, desconfiar de suas intenções... Não permitirei, a menos que eu os acompanhe.

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Partimos os três, dias após. Andamos errantemente pelos mais distantes lugares típicos de permutas e comércio de animais. Zé Preto dava fluentes mostras de concordância para com tudo, com calma inacreditável, como um artista habituado na representação de seu papel. Já estávamos propensos a desistir da jornada, quando num sábado à tarde, aportamos num local chamado “Bairro Branco”; desmontamos à porta de um boteco de beira de estrada, onde uma fieira de animais sem encontrava amarrada aos palanques da cerca. Entramos no asqueroso recinto, em cujo balcão encostavam-se peões, segurando copos de pinga, fumando cigarrões de palha, riscando o chão de barro batido, com grandes e enferrujadas esporas e cuspindo seguidamente por terra.

O velho pedira água, tomara a caneca cheia do líquido, enquanto seus olhos perscrutavam, como os de um esquilo, todo o ambiente. Zé Preto mandara vir um copo de aguardente, fizera um gesto rápido de oferecimento aos presentes, desses gestos proforma, e, lépido, emborcara o conteúdo garganta adentro; lambera, a seguir, os grandes lábios com satisfação e limpara a boca no punho da camisa suja e surrada.

Naquêle momento, aproximou-se da porta da venda, um caboclo manteudo, barba rala, cachinco de barro num canto da boca, cavalgando um animal: o “Pingo”! Meu pai empalideceu e ficou como que petrificado. Olhou para mim, como a pedir socorro, a indagar uma ajuda, a solicitar uma providência. Refeito do choque, readquiriu a ação e adiantou-se para o desconhecido:

- Moço, me desculpe, mas onde o senhor comprou êsse animal?

O recém-chegado lançou um olhar atencioso ao interlocutor, desviou as vistas para o cavalo escurecido pelo suor, e, como satisfeito por haver o mesmo despertado o interesse do velho, respondeu:

- Uái, moço, eu “barganhei” êle no domingo retrasado, lá na venda das “Duas Pontes”... e já enjeitei muito negócio bão pelo cavalinho...

Zé Preto continuava apoiado sôbre o balcão, de costas voltadas para a porta, mantendo animada conversa com o botequineiro. Não percebera e nem tampouco ouvira a conversa dos dois, pois, prosseguia bebendo, intermitentemente, seguidos “martelos” de cachaça.

Meu pai ficou, naquêle momento, inativo; eu, por meu turno, fiquei apoplético, com aquela aparição inesperada do animal procurado.

Nisso, Zé Preto voltou-se para nós e seus olhos se cruzaram com os do visitante. O malandro mudou de côr, ao ser observado por mim e meu pai. Pareceu até haver perdido o sangue do rosto. O cavaleiro, constando a pessôa do negro, apontou-o a meu pai, dizendo:

- Foi dêsse aí, que eu possuí o cavalinho...

Com a rapidez de um raio, Zé Preto levou a mão à cintura; uma grande faca “peixeira” reluziu em sua mão nodosa, descrevendo um círculo velocíssimo e foi cravar-se no peito de meu pai, com surpreendente rapidez. Não existiu qualquer palavra ou gesto do famigerado, senão a ação inesperada, que não nos permitiu, siquer raciocinar sôbre o que estava acontecendo. Em fração de segundos, consumou-se o crime covarde e brutal. Meu pai tombou sem palavras, deitando pelo peito golfadas de sangue. Atirei-me, azoinadamente sôbre o velho, como se não acreditasse naquilo que meus olhos estavam vendo. O criminoso, tal um felino, saltou para fóra do recinto. Terrificados, os demais presentes, voltaram a si, despertados pelo galopar de um animal, que conduzia em disparada louca, o terrível assassino, deixando na estrada uma impermeável nuvem de poeira. Alguns saíram, certificando-se então da inutilidade da perseguição e voltaram para acudir o ferido, que expirava apoiado em meus braços.

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Desolado, cabisbaixo, voltei para a casa, conduzindo um cavalo com a montaria inerte e uma onda de revolta a dilacerar-me o peito.

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Doze dias depois o assassino apresentou-se à prisão, acompanhado de um advogado, notório em tôda a redondeza, pelas suas inexcrupulosas ações e pelas vitórias profissionais vergonhosamente conquistadas em defesa dos mais abomináveis facínoras do lugar. Seu caráter e suas qualidades condenáveis, eram cobertas pelo grande valor dotilóquio que possuía e que chegava mesmo a torná-lo respeitável.

Para mim, desde o dia em que Zé Preto se apresentou à Justiça, até o dia do julgamento, decorreram vários séculos.

Chegou, afinal, o fatídico dia. Na cidade, pelos bares, na rua, nas esquinas, só se falava nisso. Era o “prato do dia”, parecia mesmo ser um acontecimento de interêsse geral.
Muito antes da hora aprazada, a sala do júri estava literalmente repleta. Gente de tôdas as categorias e posições sociais, ali se encontrava, para acompanhar o desfecho tão ansiosamente aguardado. O corpo de jurados era composto por elementos que eu, de antemão, considerava meus inimigos, advinhando-lhes as decisões finais. Parecia-me tudo adredemente preparado para a absolvição do bandido. Relutei, em vao, para afastar de minha razão, aquelas conjecturas, aquela certeza. Tive ainda a última esperança, de que, dentre os membros do Conselho de Sentença, alguém não morresse de amores pelo sagaz dr. Patesco e não se deixasse influenciar e atemorizar pelos argumentos convincentes e habilmente cultivados que iriam brotar da boca daquêle advogado de criminosos. Confiante, a defesa andava de um para outro lado, sobraçando a pasta volumosa e velha, revendo papéis, transpirando segurança, cumprimentando os retardatários e distribuindo sorrisos a todos, com a confiança de um gladiador. Aquelas atitudes, apertavam em torno de si, a cada minuto, o auto-domínio de sua importante capacidade ciceriana, que o dr. Patesco mais aperfeiçoava e multiplicava, naquela caminhada condenável em pról dos criminosos.

A sessão teve início, com a chegada ao recinto, do Presidente do Tribunal, a promotoria e os jurados. Em seguida, adentrou Zé Pinto, com dois soldados da Polícia, a guisa de damas de companhia. Mas, o dr. Patesco, psicologicamente, convertera o assassino. O criminoso entrara na sala, transmudado de peão vagabundo em um aparentemente completo “gentleman”, envergando um discreto terno claro, barba e cabelos cortados, gravata e até colarinho engomado! Até sapatos de verniz! A presença do negro assassino teve um efeito esperado. Pelos olhares curiosos dos presentes e pelos dos próprios jurados, não me foi difícil deduzir de que eram enormes as possibilidades de sua absolvição.

Fôra, sem dúvida, uma sagaz artimanha de defesa. Era o mesmo que a recaiacão da fachada de um prédio velho, acrescido de um fabuloso e extravagante anúncio a “gaz neon”. Zé Preto mostrava-se confiante e confundentemente calmo. Inquestionavelmente, o dr. Patesco lhe adiantara a certeza de sua vitória, que iria aumentar o ról de inúmeras outras do mesmo porte. O clima estava pesado, denotando ansiedade. O silêncio perdurava e o mais leve ruído num papel era nitidamente pressentido.

Abertos os trabalhos, o Juiz ordenou ao escrivão encarregado, a leitura dos autos, cujo mistér o funcionário desenvolveu com rapidez espantosa. O Presidente deu a palavra ao representante do Ministério Público, um velho que ostentava uma toga mais idosa do que o dono, com uma cara de fuinha e alguns ares napoleônicos. Logo ao iniciar as suas primeiras considerações da preliminar da acusação, sofreu um bombardeio de apartes da defesa, ferinos e irônicos. No princípio, a assistência permaneceu passiva. Depois, como se fosse uma “torcida” que aos poucos se inflamasse, começou a dar mostras de gostosa e favorável predileção pelos satíricos, extravagantes e bem baralhados apartes do temível advogado. Debalde o Juiz pediu silêncio, e, por duas vezes, ameaçou fazer evacuar o recinto.

O defensor, confundia, a olhos vistos, a acusação, que, por sua vez, chegava a expor-se ao ridículo, sem encontrar argumentos para anular os incrivelmente “fundados” apartes do dr. Patesco, que desfazia, habilmente, os pontos nevrálgicos da questão, lançando sôbre os mesmos e o conceito dos jurados; uma espessa rede de dúvidas. Para mim, a luta ali travada, o estava sendo entre o Ministério Público e dois bandidos, um dos quais, intelectualmente, estava, gradativamente, levando notória vantagem sôbre a acusação.

A Promotoria falou cerca de uma hora, dando por concluída a acusação. Depois falou a defesa. Torrentemente. Nem gosto de recordar-me daquelas passagens. O dr. Patesco principiou seus trabalhos defensivos, como se contasse uma história, onde criou personagens semelhantes à vítima e ao acusado, fantasiando pontos a bel prazer e pincelando a gosto, locais pitorescos e empolgantes, com uma fertilidade de imaginação digna de nota, como uma lenda de Sidney Horler, em que o vilão passou a ser herói e a vítima o vilão. Depois, com convicção galvanizada, desfez, para meu desespero, tôda a argumentação da Promotoria, desdizendo uma por uma, as afirmativas do acusador e arrazou, vitoriosamente, alguns pontos da acusação, que porventura ainda teimassem em ocupar lugar nas mentes de uma pequena parte da assistência ou dos jurados. O efeito ia surtindo a olhos vistos, como uma injeção de penicilina milagrosa. Todos os presentes, me parecia, haviam-se transferido, com armas e bagagens, integral e incondicionalmente, para a “verdade” contida nas sábias palavras do dr. Patesco. No fim de duas horas deu por encerrada a defesa, não sem apontar Zé Preto como um autêntico herói, e – cúmulo – um mártir!

O Conselho de Sentença recolheu-se à sala privativa. Nem meia hora depois, voltou. O Presidente leu o “veredictum” que surtiu o efeito de uma bomba: absolvido por unanimidade!

Foi um reboliço. A assistência movimentou-se qual um enxame, invadindo o recinto da sessão, caindo aos abraços e cumprimentos sôbre o famigerado, como num golpe de mágica transformado em herói. Por certo, se a alguém tivesse acudido a idéia, não teria deixado de solicitar um autógrafo do bandido!

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Vencido, desiludido, humilhado, abismado e revoltado contra todos, contra a própria Justiça, abandonei a cidade. Nenhuma desculpa, nenhuma ponderação, nenhuma providência, poderia, jamais, apagar de meu coração, a tão descomunal e abominável injustiça, que a própria Justiça, tão mal representada por meia dúzia de amedrontados e insensatos jurados, fizera cravar no mais profundo recôndito de meu coração próprio. Uma revolta tremenda, nauseabunda, acobertava meus mais sagrados sentimentos filiais, profundamente feridos; os meus brios e o último resíduo de esperança, desapareceram, em consequência do ardiloso resultado que o dr. Patesco soube trabalhar e inequitativos jurados corroboraram.

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Mudei-me para longe. Não podia, de nenhum modo, encontrar ambiente para mim, naquêle lugar. Dois meses depois, movido pelo dever de solver um determinado compromisso anteriormente assumido, regressei à antiga cidade, que eu tanto amei antes e que agora me parecia abjetamente repulsiva. Senti-me, na rua,, o alvo de curiosidade de todos e notei a deserção em massa de meus mais chegados amigos. A revolta pela ingratidão sofrida, por mais que eu tentasse sufocá-la, emergia, vindo entalar-se em minha garganta, num protesto mudo. Ao passar por um botequim, que mais não era do que um quartel general de bandidos e desvergonhados vagabundos, fui chamado pelo proprietário. Êste, impingindo-me u’a mentirosa intenção de cumprimentar-me, nada mais pretendeu do que auscultar-me os sentimentos e a mágua que me dominava transbordantemente. E o fez, com segundas intenções, a menos que fosse muito estúpido. Isso eu pude perceber, logo ao entrar no asqueroso antro. Encostado a um lado do balcão, com o indefectível copo de pinga entre uma das mãos, lá deparei Zé Preto. Esfriei. Ao ver-me, sorriu para mim, sarcástico, atrevido, como um general vitorioso que passa em revista a tropa vencida. Os presentes sustiveram a respiração, como a aguardar um motivo de transe, prestes a ferir-se. Surpreso, perdi a ação. Não esperava encontrar ali, naquelas condições de desafio, o matador de meu pai. Tentei controlar-me e para enganar a minha própria consciência, pedi água. O vendeiro trouxe-me uma caneca esmaltada, com o líquido. Nos lábios de Zé Preto, estava desenhado um sorriso de mofa que me indignou. Sem desejar, revivi o quadro dantesco que pouco tempo antes fez parecer meu pai, estupidamente, sob o pontaço covarde daquêle canalha. Sentí um frêmito gritante dentro de mim. O sangue fugiu-me das faces. Chamei, com insistência, o auto-domínio, inutilmente. Perdi o tino. Como se uma fôrça sobrenatural movesse meu braço direito, minha mão agarrou uma barra de ferro que fazia peso sôbre papéis de embrulho no seboso balcão. Com uma força incrível, que concatenasse a potência de meus dois musculosos braços, a arma improvisada desceu em cheio sôbre a fronte luminosa do bandido, que não teve siquer tempo de esboçar a defesa. De relance, vi o olhar apalermado dos demais e a inútil e tardia tentativa de reação do bandoleiro. Pude notar a metamorfose do sorriso irônico em máscara de dor, um gemido surdo e o escorregamento gradativo de um corpo mole e desgovernado, que, como uma enguia, desceu escorregando-se junto ao balcão e ficou meio sentado no chão imundo. Como o riscar de um relâmpago, meu bom senso me preveniu: fugir.

Recuei, quando um caboclo magro e alto, com a camisa aberta ao peito, lançava chispas pelos olhos vermelhos de álcool, pulou sôbre mim. O adversário gratuito teve ainda tempo de agarrar-me pelo braço e por pouco não me dominou. Dei um rápido e violento giro no membro prisioneiro, fazendo o inimigo perder o equilíbrio, desgarrar-se e bater estrondosamente no balcão, que rangeu, aluindo-se do lugar. Ato contínuo, corri, abandonando o recinto, apalermado com a minha repentina e inesperada atitude. Atrás de mim, um vozerio uníssono, gritava um desprezível côro: “Assassino! Assassino!”

Perambulei, qual um bicho de mato, pelos campos, ocultando-me até a chegada da noite. De madrugada, com as idéias extremamente confusas, temendo uma futura represália de Zé Preto, regressei ao velho rancho em que morei com meu pai.

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- Tá preso! – disse a voz no escuro, segurando em violento sopetão o meu ante-braço. Mesmo no lusco fusco, percebi que a pessôa que me prendeu, bem como outras duas, estavam fardadas.

Não opuz resistência. No caminho do Posto Policial, vim a saber que Zé Preto morrera, em consequência da pancada recebida. Fiquei aliviado; cheguei mesmo a ficar contente.

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E agora, eu, Isidoro Marques, ex-convicto, aqui estou após nove anos de encarceramento. Perdi os melhores anos de minha mocidade, o período mais profícuo, mais róseo que existe na vida de um homem sonhador e entusiasta. E, aqui me encontro, sózinho, indeciso, sem destino a seguir, com medo da vida, com medo da própria realidade.

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O sól vai descampando no poente. Seus raios mais longos percebem-se ainda, nos intermezzos de alguns prédios distantes. Na rua, o movimento do cair da tarde, aumentou. As luzes se acendem. Os fotógrafos e os engraxates desapareceram. Alguns mendigos, a passos trôpeços, reiniciam a caminhada de volta. A noite veste-se para aparecer sôbre a terra.

Levanto-me, apanho a velha e anti-estética mala, e, com o mesmo passo indeciso e lento que ali me trouxera, atravesso a praça, ganho a rua e perco-me entre a multidão...


Extraído da revista especial de Natal do Correio de Marília de dezembro de 1954

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