quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Pedintes estão com tudo. Andam armados e ameaçam (6 de setembro de 1973)



Sempre soubemos e fomos capaz de discernir, em todos os escritos de jornal, os mendigos realmente necessitados e os que fazem do estender a mão à caridade pública uma profissão.

E dissemos sempre, da impossibilidade do mariliense comum distinguir, dentro os pedintes, qual o falso do real mendigo.

Jamais nos cansamos de repetir, que o óbulo dado, tanto poderia ser um legitimo auxilio, como um estimulo para a sequência da vagabundagem, dependendo da condição, de fato ou falsa, de quem o recebia.

Nunca tripudiamos sôbre a desgraça ou a miséria alheia, mas vimos, como toda a população, de uns tempos para cá, abusos e mais abusos, com a cidade infestada de matilhas de pedintes, homens, mulheres e crianças, a maioria com aparências físicas contrastando com a necessidade do pedir.

O que acima se asseverou, incerto está nas coleções do nosso jornal.

         ABUSOS E ROUBOS

Ultimamente, a cidade acabou transformando-se num autêntico paraiso de pedintes. Homens fortes, muitos relativamente novos, aparentemente capazes para a execução de um trabalho mesmo rude, invadiram a cidade.

Causando desassossego público nas ruas, com o eterno “me dá, me dá”, adentrando residências mesmo altas horas da noite, para pedir insistentemente. Assustando donas de casa, empregadas e crianças. Roubando objetos de uso domésticos dos quintais. Perturbando, mal encarados, com aparência perigosa, exalando o cheiro azedo de cachaça ingerida.

E a cidade, a família mariliense, passou a viver sobre uma onde de intranquilidade, com a polícia registrando uma cifra praticamente recorde de roubos todas as noites.

Ninguém contesta isso, pois toda a cidade o sabe, todos os habitantes tem conhecimento ou experiência desses fatos desagradáveis.

E as ruas de Marília vinham apresentando verdadeiras enchentes desses tipos de desocupados, vadios, ladrões e pinguços.

         POLÍCIA AGIU

As autoridades policiais, resolveram agir, pois a situação estava insustentável. Cidades visinhas traziam caminhões lotados de pedintes e os despejavam em Marília. A Fepasa, seguidamente, trazia vagões lotados de pedintes recolhidos em São Paulo.

A polícia local, numa operação-limpeza, sem sevícias e sem maus tratos, recolheu e triou um ról imenso de pedintes. Os verdadeiros mendigos, pedintes por necessidade, não foram molestados e devolvidos aos seus “postos”, mesmo porque a polícia não dispõe de condições e nem meios para seus tratos ou internamentos.

         CIDADE SENTIU E AGRADECEU

A cidade sentiu e agradeceu a providencia policial.

Na operação limpesa, provado ficou, que uma porcentagem bem grandiosa dos pedintes eram vagabundos, pinguços e ladrões.

O povo ficou tranquilo e aplaudiu.

Essa tranquilidade pouco durou, infelizmente.

         A POLÍTICA

Alguns vereadores, sem saber bem do fato, ou sabendo bem e querendo “bagunçar o coreto”, insurgiram-se na Câmara, fazendo indagações ao Prefeito, cujo conteúdo dava a confundir muita gente, como se ao Chefe do Executivo tivesse culpa sobre o fato.

A atitude cassou mal estar, porque muitos dos 100 mil habitantes, perceberam a “manobra”, inocente ou mal intencionada.

O prefeito mandou publicar esclarecimento, dando conta à população, que ele nada havia feito no caso, apenas cedido por empréstimo uma viatura à Polícia, como sempre tem sido feito.

         REPERCUSSÃO

A atitude da Câmara, com selo oficial, ganhou repercussão fóra dos limites do município. Disso se aproveitaram ingênuos ou mal intencionados, tirando casquinhas e gerando uma promoção contrária ao próprio progresso mariliense.

Até um deputado que nunca moveu uma palha por Marília e que talvez não conheça o prefeito, acabou pedindo na Assembléia uma CPI para “apurar” as responsabilidades (inexistentes) de “um prefeito desumano”.

A estas horas, o deputado em questão, Ruy Codo, já caiu do burro.

         AUMENTANDO

Vem sendo sentido o aumento gradativo de pedintes nas ruas da cidade. Nem todos são mendigos, como assim foram os ladroes e vagabundos, “carinhosamente” chamados pela Câmara e pelo deputado desconhecido de Marília.

Está aumentando o número de pedintes.

E com isso, aumentando o desassossego público.

E também aumentando o número de roubos.

Certamente a polícia nada irá fazer, pois esperará as providências dos vereadores que se antepuzeram à medida e do deputado que ouviu a galinha cacarejar e não soube onde.

         ESTÃO COM TUDO

Agora os pedintes estão com tudo.

Polícia não os incomoda. O prefeito nunca os incomodou.

Vereadores e deputado os defendem.

E andam até armados.

Um deles já sacou uma faca, ameaçando populares, que não quizeram dar-lhe esmola.

Há até um médico que testemunhou.

Extraído do Correio de Marília de 6 de setembro de 1973

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