quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Gosto não se discute (1 de agosto de 1973)



É isso aí.

Já andei por vários pontos destes brasis. Conheci o Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Guanabara, Bahia, Alagoas, Ceará, Pará, Amazonas, etc.

Até há pouco, não havia conhecido a Capital Federal.

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Por mais de duas semanas, estive em Brasília, recentemente. Em funções de trabalho, percorria diariamente a cidade.

Meus leitores desculpem: não gostei de Brasília. Pelo menos para ali residir, não gostei.

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Convém explicar:

Em têrmos de planejamento arquitetônico, em esquematização urbana, Brasília está excelentemente equacionada. Em beleza, também.

Não gostei da padronização, da estandardização.

O objetivo desse padronizamento urbano, fére os gostos, as metas e as possibilidades dos brasilienses. Tudo tem que ser cingido ao esquema inicial, é imutável. Brasília não cresce para o alto, como ocorre com os demais grandes centros do país e do mundo.

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Setores representam o protótipo urbano-arquitetônico. A principal Avenida, a W-3, mesmo contando com duas mãos de direção e três pistas em cada mão, choca as vistas dos forasteiros. De um lado, parte comercial, em conjuntos harmônicos, como se foram cópias de carbono, de um único pavimento. De outro lado, residências igualmente padronizadas, de pavimentos únicos, idênticas, imutáveis e inalteráveis.

Uma coisa feio-bonita ao mesmo tempo.

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O sair-se do centro, para alcançar um bairro residencial, é o mesmo, comparativamente falando, do que deixar-se Marilia e rumar para Vera Cruz, pelo sólo asfáltico, vendo de ambos os lados, campos estéreis.

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As quadras residenciais apresentam um aspecto que não me agradou. Parecem murais retangulares, com uma aparência, grosseiramente falando, de um cercado de campo de futebol interiorano. Todas as portas e janelas iguais, ligadas, geminadas, sem siquer um corredor de entrada de serviço. Nos fundos, tudo análogo: um portão grande, dando acesso para um pequeno quadrado, que serve ao mesmo tempo de quintal e garage.

Tudo estandar, idêntico, padronizado, obedecendo um só e único gosto. Impedindo qualquer mudança de fachada, pois o processo originário é terminantemente impedindo qualquer alteração.

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Nos bairros residenciais, distantes por sinal, não existem muitas das facilidades que temos entre nós como farmácias, quitandas, pequenos empórios, tinturarias, alfaiatarias, etc..

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Nível de vida muito mais elevado do que o nosso, por sinal.

Justifica-se a divergência para maior por questão de preço: encarecimento de transporte e distancia da fonte de origem, pois a força de tudo o que se consome e utiliza em Marília, provem inevitavelmente do Estado de São Paulo.

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Não quer dizer isso, que Brasília deixa de ser uma cidade moderna. Em contrário, é a única cidade brasileira construída com planejamento prévio.

Ocorre que, para mim, algo desse esquema poderia sofrer alterações e não sofre. Porisso, pessoalmente, não gostei de Brasília. Pelo menos para ali residir.

Desculpem-me os leitores essa lealdade.

Mesmo porque, gosto não se discute.

Extraído do Correio de Marília de 1 de agosto de 1973

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