segunda-feira, 19 de março de 2012

TIPOS & COISAS & CASOS (2)



Não era bem um arraial. Nem uma grande propriedade agrícola e muito menos uma bonita fazenda. Era, sim, uma área consideravelmente grande. Representada por inúmeros pequenos sítios, todos eles pertencentes a imigrantes europeus e seus descendentes. Só um sitinho não pertencia a portugueses, espanhóis ou italianos. Era de um japonês, o Nagagawa.

O nipônico, para não fugir à regra, éra horticultor. Três vezes por semana, lotava a carroça puxada pelo burro “Ginko”, com legumes e frutas e ia vender na cidade, distante duas léguas dalí.

Os sitiantes constituíam uma pequena e bem unida comunidade. Todos se conheciam, se respeitavam e estimavam.

Um descendente de italianos, rapaz aloirado, alto e de olhos bem azuis, era sem dúvida o mais popular de toda aquela coletividade. As moças, especialmente as casadoiras, o achavam um verdadeiro “pão”. Os homens gostavam dele e muitos rapazes o invejavam.

Apesar de filho de italianos, ninguém sabe por qual carga d’água o jovem fôra registrado com o prenome de Sebastião.

Bastião Sanfoneiro – assim era ele conhecido.

Dava duro na lavoura, de sól a sól. Aos sábados, sempre animava os bailes familiares, que se realizavam invariavelmente nas tulhas das propriedades. E não havia um sábado siquer que o Bastião Sanfoneiro não atendesse um convite e não se fizesse presente num dos sítios, alí puxando o fóle – como se costumava dizer – para alegria dos jovens e de velhos também, que participavam do “arrasta-pé” até altas madrugadas.

O que intrigava muitas moçoilas, é que Bastião, sendo jovem e bonito, honesto e trabalhador, não tivesse até então, demonstrado qualquer intento de um namora sério, que fatalmente terminasse em casamento. As moças que assim pensavam torciam intimamente para que essa ventura pudesse recair sobre elas...

Mas, como afirma antigo brocado, que “não há bem que sempre dure e nem mal que nunca acabe”, um dia aconteceu: cupido acertou uma violenta flechada no santoneiro.

Sebastião “bateu o barro” na Silvia, conhecida como “Silvinha Italianinha”. “Bater o barro”, alí entre os homens e também entre as mulheres, significava pedir uma moça em namoro ou casamento. Se o pedido era aceito, o “barro grudava”. Se o pedido era recusado, o “barro não grudava”...

Com o entusiasmado namoro do Sebastiao, passaram a diminuir os bailes semanais da coletividade, pois o Bastião Sanfoneiro dava mais valor à companhia da Silvia do que “puxar o fóle” para os outros dançarem.

Tempo passando e correu a notícia do casamento do Sebastião.

Para o baile nupcial, que lotou totalmente a tulha do pai da noiva, foi contratado um sanfoneiro da cidade, pois o nubente, como é óbvio, não iria tocar naquela noite.

- “A sanfona dele, hoje, vai ser outra...” – comentava, num suspiro profundo, a Marieta, mulher do Genaro, que era considerada a mulher da mais ferina língua da comunidade.

Um mês após o enlace já circulava a notícia entre os cochichos feminino ou as conversas masculinas: a Silvinha havia “encomendado” um bebê.

E menos de dez meses do casamento, nasceu numa madrugada de final de colheita de café, o primeiro filho de Sestastião. Um varão.

O papai estreiante estava animadíssimo. A mãe feliz, os avós jubilosos. As mulheres visitavam o nenê e o achavam “a cara do pai”. As moçoilas casadoiras, viam aumentar a inveja que nutriam pela Italianinha.

Uma tarde, no botequim do Onofre, à beira da estrada, e no sítio do Tonhão, o Bastião Sanfoneio apareceu. Foi cumprimentado e abraçado por todos e pagou umas e outras para os presentes.

Foi quando um dos amigos perguntou ao Sanfoneiro como iria chamar-se o herdeiro.

E o Bastião, todo orgulhoso e feliz, abrindo um sorriso de noventa graus, respondeu:

- U minino vai tê u mermo nómi di meu pai... vai si chama Anjo...

O nome do pai do Sebastião éra Ângelo.

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo e leva a data de 12/8/1988.

Um comentário:

Nery Porchia disse...

O Zé Arnaldo bem que podia ser chamado de o "folcloreiro" da nossa Marilia. Que texto lindo....