terça-feira, 13 de setembro de 2011

Patriotismo? (11 de setembro de 1959)

Conversávamos algures com um grupo de amigos, quando veio à baila o assunto “nacionalismo”. Emitiram-se, sôbre a tese, opiniões várias entre os interlocutores. Concluímos que da palestra ficou clara a idéia predominante que o nacionalismo não é aquilo que se apregôa por aí e que hoje serve de chavão aos falsos patriotas.

Em verdade, como dizia um dos presentes, o nacionalismo, entre nós, pode explicar-se como sendo tão sòmente “aquela coloração vermelha que “formiga” e que os homens sentem no rosto conhecida como vergonha”! O resto é conversa, porque existindo brios, seguem-nos o patriotismo sincero, que é o nacionalismo leal.

Um cidadão de fóra participava da conversa. Homem de aspecto simples, porém exteriorizando uma vida experimentada na crueza da vida. Bem falante, de regular cultura. Goiano de nascimento. Conhecedor de todos os rincões do Brasil.

Deteve-se êsse nosso amigo até então desconhecido, numa análise dos descasos governamentais para com o nordeste e o Brasil-central. Argumentou, com suas palavras trespassadas de lógica e bem pensadas, que o Brasil deve superar, o quanto antes, a sua condição de líder cafeeiro, voltando suas vistas com mais intensidade para os problemas das riquesas do solo. E citou as variadas espécies das riquesas, como um conhecedor de fato do assunto. Um dos motivos de sua palestra nos calou profundamente e fazemos questão de reproduzí-lo nesta croniqueta. É o seguinte:

Na cidade de Céres, Estado de Goiás, onde reside êsse cidadão, uma pessoa “abriu” um poço. Finalidade: localização de água potável.

Do poço não saiu água e sim petróleo, apesar da pequena profundidade da perfuração. Petróleo virgem, utilizado para alimentar lamparinas e até motores! O assunto alarmou a população da pequena cidade. Prefeito, vereadores e deputados estaduais, em comissão, verificaram “in-loco” a autenticidade do fato. O homem já se considerava rico, quando uma pessoa “levantou uma lebre”, dizendo que o petróleo poderia ocasionar-se do rompimento de alguns tanques subterrâneos de um posto de gasolina das imediações. As vistas voltaram-se para o posto referido e o próprio proprietário se interessou pela questão, acreditando na possibilidade e encarando o fato como sérios prejuízos para a sua parte. Desenterraram tudo e examinaram os tambores do sub-solo. Constataram que tudo estava em perfeita ordem e que o “fenômeno” deveria ter outra origem.

O proprietário do lote procurou abrir outra cisterna, pois o objetivo primordial era a localização de um lençol de água potável. Na nova perfuração, repetiu-se o “fenômeno” do primeiro poço. Novamente foram chamadas as autoridades anteriormente citadas e foi constatado, mais uma vez, que aquêle “óleo preto, cheirando algo parecido com querosene e asfalto, que queimava em lamparinas e servia para alimentar motores” era petróleo mesmo e não água potável.

As autoridades fizeram consubstanciado relatório, que foi assinado e encaminhado com urgência à Petrobrás.

Passaram-se mais alguns dias e uma comissão de técnicos da mencionada empresa nacional “baixaram” em Céres. E foram diretos aos dois poços que ao envés de água potável, fluíram o petróleo virgem e inconfundível. Examinaram, cheiraram, queimaram e testeram o líquido negro. Entreolharam-se. Franziram os sobrôlhos. Separaram-se dos demais e confabularam. E então decidiram: mandaram fechar os poços e lavraram uma proibição solene; ninguém poderia mais abrir poços naquelas imediações ou reabrir aquêles dois!

Como se vê, o “negócio” parece ter “dente de coelho”. Como se percebe, o decantado nacionalismo está capengando mesmo. Só servindo para a exploração política de políticos de doutrina abjeta!

Enquanto isso, a Petrobrás tenta descobrir petróleo em outros pontos, mesmo onde as possibilidades positivas ou remotas. O que interessa, no caso, é a política. Ou a política ou então existe indestrutível inépcia ou segundas intenções. Pois não se admite uma desculpa esfarrapada para o caso de abandono da fonte comprovada, para ir-se perfurar um terreno em outros pontos, onde nenhum indício seguro se apresentou até agora. Se quiserem um exemplo vejamo-lo numa cidade bem pertinho de Marília!

Extraído do Correio de Marília de 11 de setembro de 1959

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