quinta-feira, 24 de março de 2011

Pessimismo crônico (24 de março de 1959)

A onda de pessimismo que nos domina, de que tudo anda de mal a pior, póde ter, como julgamos ter de fato, as suas razões de ser. Nós mesmo, em funções de imprensa, abordamos seguidamente a questão, menos em causa própria do que tentando interpretar os clamores públicos que nos chegam ao conhecimento ou que foram por nós observados.

Uma coisa, entretanto, é certa em tudo isso: existe um trabalho animador em quasi todos os ângulos de Marília e se nós somos apenas uma célula viva do Estado líder da Federação, justo é que se avalie, numa síntese despretensiosa e algo fria, que o pessimismo é crônico. Não que pretendemos afirmar que a vida está “côr de rosa”, porque isto seria uma insensatez. Mas a gente em Marília, trabalha como póde, esticando-se em ações com o fito de garantir a própria subsistência, ações essas que representam o combustível que a máquina do progresso vai consumindo insaciavelmente.

Os clamores em maior elevação, verificam-se na Avenida, onde muita gente “ajuda o João” durante todo o dia. Mas saindo-se desse ambiente, onde quer que nos projetemos neste município, para qualquer ponto cardial que nos dirijamos, constataremos sem dúvidas, que o trabalho existe, a engrenagem da possante máquina do trabalho e o inconteste sinal dos tempos, continua a ser alimentada e lubrificada com as ações dos marilienses, em todos os campos, em todos os setores, sob todos os prismas imagináveis das atividades humanas.

Bem ou mal remunerado, muito ou pouco compensador, leve ou pesado, difícil ou fácil, existe o trabalho, existem as possibilidades de suas ações, existem os que labutam em qualquer canto e em diversos setores.

Clama o comércio, de “paradeira” inacreditável, reclamam as indústrias de dificuldades várias, mas a vida continua, embora tenha perdido um rítmo colimado ou esperado por alguns. O trânsito das ruas é imenso, os ônibus inter-municipais ou inter-estaduais viajam quasi sempre com lotações completas, na gare ferroviária embarcam e desembarcam, seguidamente, milhares de pessoas.

E Marília vai produzindo, vai se agigantando. Sua gente continua a faze-la crescer, chorando ou rindo, queira ou não. O trepidar da máquina deste dinamismo irrefreável, só deixa de atingir ou preocupar um número pequeno e por sinal, é o número dos que mais se lamentam da situação em geral. O fato é que ninguém morreu de fóme até hoje; ninguém deixou de existir, quando trabalha, embora exista com dificuldades várias, com poucas facilidades de levar a vida pretendida. Mas todos vivem, todos “se viram”, numa demonstração de que existe aquí o campo suficiente para isto tudo, que em primeira análise, traduz a garantia de um grande centro, de uma cidade dinâmica.

Façamos uma excessão a diversas pessoas que trabalham de fato, não alimentam esse pessimismo crônico, sem chegar a viver conforme esperavam. Mas exclusamos dessa cogitação, os que deixam de trabalhar de fato, os que ficam na expectativa de negócios “caídos do céu”, que são, por sinal, os que mais clamam contra a situação nacional, que, de fato, não se apresenta nos dias atuais, conforme seria de esperar-se. Entretanto, entre uma coisa, existe um pessimismo abjeto e de caráter simplista, quando deveria existir, por parte de alguns marilienses, mais trabalho e gritaria menor.

Extraído do Correio de Marília de 24 de março de 1959

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