quinta-feira, 31 de março de 2011

A questão da política cambial (31 de março de 1959)

Ilustre comerciante e leitor deste jornal, confessando-se admirador de nossos modestos e despretensiosos artiguetes, escreve-nos tecendo considerações sôbre os absurdos que se verificam em nosso país, no que tange a atual política cambial.

Cita nosso amigo uma série de fatores originários dêste fenômeno, que constitui num autêntico desgoverno. Simultaneamente, nos remete a um arrazoado de autoria do Sr. Luiz Toni, um dos diretores da Associação Comercial de São Paulo, acêrca da atual política cambial e suas causas dirétas. O argumento aludido foi publicado no jornal “Diário do Comércio” de 25 último.

Nosso amável leitor, que teve a gentileza de identificar-se assinando a correspondência referida, solicita-nos também a transcrição da argumentação aludida, o que iremos atender com prazer, visto tratar-se de assunto que interessa à muita gente e que diz respeito aos próprios interesses econômicos do país. Temos abordado questão inúmeras vezes, tão somente do lado de observação jornalísticas, pois para ninguém é segredo de que nós, particularmente, não somos autoridade na matéria.

Nossos comentários cingiram-se, de modo especial, ao sentido de observação pura e simples à distância, sem fundamentos técnicos ou estatísticos. Como, agora, o argumento que nos é remetido, com o pedido de divulgação, foi proferido numa assembléia de uma entidade de classe, defendido por uma autoridade na matéria e difundido em seguida por um órgão técnico de imprensa, aquí segue na íntegra, conforme nos foi remetido, a sua inserção:

“O atual sistema cambial, conjugado com a atual Tarifa Alfandegaria, resultou numa elevação dos preços das mercadorias de tal monta, que importar hoje, é uma aventura. Tivemos oportunidade de provar, nesta Casa, que uma determinada importação realizada antes do atual sistema cambial, exigiu o emprego de Cr$ 600.000,00 e que, para essa mesma importação, feita sob o atual sistema, foi necessária a quantia de 10 milhões de cruzeiros. Demonstramos que, destes 10 milhões de cruzeiros, apenas 6% se referiam ao valôr da mercadoria. Os restantes 94% foram dispensados em ágios (71%) e outras despesas (4%).

“Para usarmos uma linguagem mais acessível, diremos: um rolo de arame farpado, de 200 cruzeiros de custo, acrescido do ágio etc. vai a Cr$ 1.350,00 de custo; uma dúzia de limas para enxada, de Cr$ 38,00 de custo, com ágio etc. vai a Cr$ 900,00 de custo; a soda caustica, de Cr$ 4,00 de custo por quilo, com ágios etc. vai a Cr$ 35,00; uma lata de azeite, de um quilo de Cr$ 20,00 de custo, com ágios etc. vai a Cr$ 200,00 de custo; um quilo de bacalhau, de Cr$ 18,00 de custo, com os ágios etc. vai a Cr$ 140,00 de custo; o breu, de Cr$ 4,00 de custo por quilo com os ágios etc. vai a Cr$ 45,00 de custo. Muitos outros exemplos poderíamos dar, mas, para não nos alongarmos, poderemos generalizar, afirmando que os preços de custo das mercadorias importadas, 60 a 70% do seu valôr, correspondem a importâncias recolhidas aos cofres da União.

“O próprio governo, ao estabelecer as novas tarifas, afirmou que os ágios seriam suprimidos, tal era receio de que os preços atingissem níveis nunca antes alcançados. Pois bem, estes níveis foram alcançados e superados, pois os ágios não foram suprimidos, antes, pelo contrario, alcançados maior estação, devido a sempre crescentes escassez de moedas.”

Extraído do Correio de Marília de 31 de março de 1959

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