sábado, 7 de dezembro de 2013

Você entende isto? (07 de dezembro de 1974)


Era uma vez, um sujeito.

O “sujeito”, aqui neste caso, um homem.

Esse homem era solteiro e órfão de mãe. Se era órfão de mãe e não era órfão de pai, isto quer dizer que ele tinha pai e não tinha mãe. Se não tinha mãe e era órfão de mãe, é sinal que a mãe (dele) tinha partido desta para a melhor (ou pior). Quer dizer, tinha morrido.

Até ai está tudo correto, certo, sem sombra alguma de alguma dúvida.

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O sujeito começou a namorar uma viúva, siquer imaginando a enroscada em que iria meter-se. Sem supor que iria aprontar a si próprio, o maior “rolo” da paróquia.

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Como todo namoro é a fase que preconiza e anteve a realização do “conjugo vobis”, isto é, do casamento, o sujeito acabou metendo-se na condição intermediária do noivado. Acabou enfiando uma argolinha no dedo anular da mão direita, apesar de ser canhoto. Isto é, ficou noivo.

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Do noivado para o enlace foi um passo apenas e o sujeito acabou casando com a viúva. Então ele que era solteiro e órfão de mãe, ficou casado, restando viúvo o próprio pai.

Mas a mulher do sujeito tinha uma filha solteira e o velho apaixonou-se pela moça, terminando por casar com ela, deixando de ser viúvo.

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Ai começou o enbananamento: o pai passou a ser genro do próprio filho e o filho padrasto do próprio pai. Com isso, a enteada do sujeito passou a ser madrasta dele, uma vez que havia casado-se com o pai e o pai do sujeito passou a ser genro da mulher desse mesmo sujeito.

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Um ano depois, a mulher do sujeito teve um filho, que ficou sendo filho da mãe da mulher do pai do sujeito e ao mesmo tempo tio do sujeito, uma vez que era irmão da enteada que também era madrastra do sujeito.

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Algum tempo depois, a mulher do pai do sujeito, que já era enteada e madrasta dele, teve também um filho. Esse filho passou a ser irmão e neto do sujeito ao mesmo tempo, uma vez que era filho da filha da mulher dele e filho também do pai do sujeito.

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Ai o sujeito passou a complicar-se mais ainda.

A mulher dele passou a ser também sua própria avó, por ser mãe da mulher do pai dele e o sujeito passou a ser não somente marido da mulher dele, como igualmente neto da própria mulher.

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Como o marido da avó de uma pessoa é também avô dessa pessoa, o sujeito acabou sendo avô dele mesmo.

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Acontece que toda a família sempre fora pobre e só o sujeito era rico.

E um dia ele começou a pensar nesse rôlo dos diabos em que havia entrado e que se agravara com o pai casando com a enteada deele e complicado mais ainda, com o nascimento das duas crianças.

E pensou, pensou, que quando ocorresse o dia de sua morte, a partilha da herança iria dar um trabalho dos diabos, porque ele não conseguia descobrir ao certo quantos herdeiros tinha, em linha descendente.

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Faz muitos anos que já foi celebrada a missa de sétimo dia do falecimento do sujeito, que morreu convencido de que era avô dele mesmo…

Extraído do Correio de Marília de 07 de dezembro de 1974

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