quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Um papai noel diferente (19 de dezembro de 1974)


Isto aconteceu há muitos anos, num pequeno sítio, distante oito quilômetros da cidade de Cafelândia.

Um menino, cursando já o terceiro ano primário de escola rural, conseguira aprender a lenda do Papai Noel, ficção que a maioria das crianças da lavoura, na época, ignoravam completamente.

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Órfão de mãe, o menino pobre viu sentir dentro de sí aquele desejo magnifico de amor, pretendendo ser o Papai Noel dos dois irmãos menores, que não tinham a mínima lembrança da própria mãe.

E o menino chamou a irmã e o irmão menores do que e maiores do que os outros dois, pedindo o natural sigilo à estória de Papai Noel e à intenção de dar presentes aos dois pequeninos.

Os outros dois, uma menina e um menino, acataram a ideia do irmão maior, o menino desta recordação.

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Da mesma maneira da fábula dos ratos, que pretendiam amarrar um sininho no pescoço do gato, o desânimo tomou conta dos três confabuladores, quando um deles lembrou que para comprar os presentes havia necessidade de dinheiro.

O menino ficou triste, porque não tinha dinheiro para comprar os presentes de Papai Noel, que deveria dar, sob engano, aos dois pequeninos.

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Enquanto os outros dois que haviam merecido a confidência olvidavam completamente o assunto, o menino via crescer sua angústia e desilusão pela realidade crua em não poder consumar o seu objetivo de dar presentes de Papai Noel aos dois irmãozinhos menores e sem mãe.

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O menino pobre sofria intimamente, rebuscando na ideia um meio ou uma fórmula que lhe pudesse ensejar o conseguimento de dinheiro – não tinha a mínima ideia de quanto – para comprar os dois presentes de Papai Noel.

Pedir ao pai não adiantava porque sabia que o pai não tinha e, mesmo que tivesse, julgava que o pai não iria acreditar na estória de Papai Noel, que a professora havia contado na escola.

Pedir emprestado sabia que não poderia, pois não iria dispor de meios para o posterior pagamento do empréstimo.

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Pensou, pensou e acabou por encontrar a solução que lhe pareceu adequada. Chamou a irmã, aquela que não sabia da intenção. Expôs o plano: ele, o menino, faria um facão de madeira, que seria o presente do irmãozinho e a menina faria uma boneca de pano, que seria o presente da irmãzinha.

Mas a irmã alegou que não sabia fazer boneca e, ante a insistência do menino, rebelou-se dizendo que não faria mesmo e ameaçou de contar aos dois pequeninos a manobra e a mentira.

O menino convenceu-a a calar-se sob condições de que ela não faria a boneca e o caso ficava encerrado.

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Nas horas de folga, durante mais de uma semana, com uso de um velho canivete e um caco de vidro, o menino pobre trabalhou numa lasca de madeira, na tentativa de fazer um facão imitativo. Suas mãozinhas incharam e sangraram, mas ele não desistiu.

Fez o facão que ele próprio achou muito bonito e que sentiu um orgulho imenso, quando o exibiu aos outros dois irmãos. Cuidadosamente, guardou o fruto do cansativo e até artístico trabalho numa “estronca” do paiol.

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Ai dispos-se a fazer a boneca, o trabalho que a irmã recusara fazer. Conseguiu alguns pedaçoes de panos velhos. Com palha de milho, fez uma espécie de bola. Cobriu com um retalho de peno branco a bola, fazendo a “cabeça” da boneca. Fez a seguir, com tiras de pano, quatro espécies de “tripas” à guisa de pernas e braços. Depois, o “corpo”. Pacientemente e espetando os dedos várias vezes com uma agulha, conseguiu armar a boneca. Recortou e fez o vestido. Com linha vermelha, “bordou” a boca e os olhos e, com linha preta, “bordou” o nariz e sombrancelhas.

Faltavam os cabelos. Apanhando a tesoura da vó às escondidas, conseguiu cortar mechas do pelego do arreio que o pai utilizava no cavalo. Costurou a lã na cabeça da boneca, concluindo o trabalho.

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Ele próprio não gostou da “obra”. Mostrou à irmã e esta também não apreciou, achando-a parecida com uma bruxa.

Mas o menino havia trabalhado muito.

Entendeu que deveria ficar naquilo mesmo. E ficou.

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Dias antes, preparou o espírito dos dois pequenos. Contou a estória de Papai Noel repetidas vezes, até que os dois acreditaram e se entusiasmaram.

Na véspera de Natal, convenceu os dois a deixarem as sandalinhas no paiol, para ir buscar no dia seguinte.

À noite, depositou o facão de madeira na sandália do menino e a “boneca” na da menina.

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O garotinho acordou primeiro, apanhou o facão e ficou todo feliz. A menina foi acordada pelo outro irmão, que exibiu o presente e contou sobre a boneca. A menina saiu correndo e quando chegou ao local ficou desapontada. Apanhou a “bruxa”, olhou-a bem e atirou-a longe, chorando e dizendo que “aquilo” não era boneca.

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O menino voltou a ficar triste ao ver frustrado todo seu trabalho e intenções. Ocultou-se atrás do paiol e chorou.

Esse menino pobre que executou os dois presentes de Papai Noel fôra o autor desta coluna diária.

Extraído do Correio de Marília de 19 de dezembro de 1974

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