quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Não há razão para neurose (11 de dezembro de 1974)


Não há muito tempo, Flávio Cavalcanti, num dos programas de televisão que costumava apresentar, fez uma “cera” danada e criou um estado de suspense entre os telespectadores.

No final, veio a “bomba”, que não ficou nada além em efeitos do que um simples e inofensivo traquezinho junino.

Disse Flávio (cadê ele?), que um grupo de cientistas chegou à conclusão de que a doença do ano de 1980 será a neurose.

Parece não ser necessário saber como um cientista para prever tudo o que está diante dos olhos de toda gente.

O mundo está fracionado por homens e ideias, por uma juventude que protesta sem dialogar, os meios de comunicação massificando todo mundo, ausência de uma compreensão geral e desmedimento nos horizontes da ganância, o materialismo capeando toda gente, o lufa-lufa cotidiano e as correrias de todas as horas pelo ganha-pão diário, tudo isso virá mesmo a fazer das gentes, usinas geradoras de neurose.

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A conclusão dessa “bomba” do Flávio Cavalcanti é tão banal que não chega siquer a equiparar-se com o problema do cara que casou com uma viúva e acabou convencendo-se ser avô dele próprio, citado nesta coluna dia destes (07/12/1974).

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Mas, como todos os problemas têm solução e como todas as circunstâncias tem um lado oposto, como igualmente todos os acontecimentos apresentam mais de uma versão, aqui está a revelação inconteste de que não existe nenhum motivo, para que a gente se preocupe com a doença da neurosa anunciada pelo Flávio Cavalcanti.

A naurose tem como uma das principais causas o atropelamento de ideias como consequência da luta pela própria vida.

Isto é uma causa do próprio trabalho dos homens.

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População do Brasil: 52.436.768

Menos: pessoas com mais de 60 anos: 7.896.425

Restam para trabalhar: 44.540.343

Menos: menores de 18 anos: 23.430.212

Restam para trabalhar: 21.110.131

Menos: funcionários civis e dependentes: 7.678.671

Restam para trabalhar: 13.431.460

Menos: forças armadas e dependentes: 3.456.875

Restam para trabalhar: 9.974.585

Menos: funcionários estaduais, municipais e dependentes: 4.523.575

Restam para trabalhar: 4.341.001

Menos: reformados e aposentados: 2.354.805

Restam para trabalhar: 1.986.196

Menos: pessoas que vivem de rendimentos: 895.174

Restam para trabalhar: 1.080.912

Menos: doentes, presos e inválidos: 934.650

Restam para trabalhar: 45.252

Menos: boas vidas e outros que não querem trabalhar: 45.249

Restam para trabalhar: 3

Três: O presidente da República, você e eu.

E você trate de se mexer, porque o Presidente está viajando e eu estou cansado de “dar duro” sozinho…

Extraído do Correio de Marília de 11 de dezembro de 1974

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