terça-feira, 10 de dezembro de 2013

De luto a OAB (10 de dezembro de 1974)


Está de luto a Ordem dos Advogados do Brasil.

Está de luto a sub-secção de Marília dessa mesma Ordem.

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Faleceu a doutora Lucy de Carvalho, advogada por idealismo e vocação, defensora gratuita dos pobres e oprimidos.

Fui apresentado à doutora Lucy de Carvalho em fins de 1945. Meu introdutor fora o professor Basileu Assis Moraes, que era diretor da Biblioteca Municipal de Marília.

O prefeito era o sr. João Neves Camargo.

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A diretoria do Ginásio Municipal – local onde hoje funciona o Ginásio Industrial “Antonio Devisate” – promoverá uma sessão solene para recepcionar os “pracinhas” da FEB, que regressaram dos campos de luta da Itália.

Uma sessão de gratidão e de civismo, onde além do prefeito, vários professores se fizeram ouvir, enaltecendo os feitos dos soldados da Fôrça Expedicionária.

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Duas pessoas impressionaram-me sobremaneira, naquela oportunidade.

Uma, o falecido advogado e poeta Dr. Zoroastro Gouveia, que proferiu um discurso inflamado de patriotismo, numa demonstração inequivoca um inimitável poder datilóquio, esbanjando uma retórica impressionante, dominando todo o plenário e comovendo em especial os “pracinhas” e seus familiares presentes.

Outra fôra a Dra. Lucy, que palestrou demoradamente comigo, impressionando-me pela sua cultura, maneira fácil e dócil de falar, demonstrando um extraordinário poder comunicativo.

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Daquela data em diante, passei a admirar a Dra. Lucy, ufanando-me mesmo de ouví-la dizer-me várias vezes ser fã e admiradora de meus modestos escritos.

Muitas vezes discordando de meus pontos de vista, expressava seus entenderes, de maneira cortês e elegante, como sóe acontecer com as pessoas cultas e respeitosas.

Sempre gostava e tinha por hábito falar comigo a respeito de minhas crônicas ou reportagens. E não ficava apenas nisso. Quando tinha uma ideia, que julgava oportuna de ser divulgada através da imprensa, procurava-me pessoalmente aqui na redação, para sugerir aquilo que acreditava ser oportuno e de interesse geral. Muitos foram os subsídios me fornecidos pela Dra. Lucy e transformados em assuntos para diversas publicações através desta mesma coluna.

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É um “status” natural dos homens querer bem quem demonstra querer bem.

Por isso eu nutria respeito e admiração pela amizade incondicional que a extinta fazia quest ão de tributar-me e esforçava-me por retribuir, num mesmo nível, essa deferência antiga e espontânea.

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A Dra. Lucy, juntamente com a professora Lyriss da Rocha, bem como outras jovens da ocasião, fôra a idealizadora e co-fundadora da Gota de Leite de Marília, uma instituição maternal que hoje é um padrão no campo assistencial da maternidade de nossa cidade.

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Por duas legislaturas fôra presidente da sub-secção da Ordem dos Advogados do Brasil em Marília. Fez parte da diretoria do Hospital Espírita e colaborou intensamente com o núcleo local da Legião Brasileira de Assistência.

Tinha sempre a preocupação com o problema dos menores, a ponto de agir por iniciativa própria, em muitos casos de seu estabelecimento.

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A Dra. Lucy prestou serviços inestimáveis e valiosos aos pobres de Marília, em termos profissionais, havendo casos em que a advogada, além de nada cobrar pelos seus serviços de advocacia aos pobres e oprimidos, ainda pagava de seus próprios bolsos as custas e emolumentos devidos à Justiça.

Sempre fôra excelente intermediária em questões de separações e desquites e muitos casos a dra. Lucy conseguiu solucionar pacificamente, reconquistando a harmonia de casais.

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A Lucy não era uma pessoa excessivamente humilde, nem excessivamente arrogante. Em alguns casos, mostrava-se até “durona” e irredutível.

Mas uma qualidade ela sempre teve e sempre demonstrou possuir: o espírito de justiça.

Mais do que justa, sempre fôra leal e sensivelmente humana, chegando a sofrer até com casos de terceiros que a procuravam como advogada.

Benemerente, a Dra. Lucy exercia a caridade como manda o Evangelho – a mão esquerda ignorando o que faz a mão direita.

Está de luto a Ordem dos Advogados do Brasil.

Extraído do Correio de Marília de 10 de dezembro de 1974

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