sexta-feira, 31 de maio de 2013

“Num paga a pena” (31 de maio de 1974)



Monteiro Lobato foi um escritor diferente.

Pena brilhante, sensibilidade raríssima, sabia dar um aceleramento multi-forme à sua imaginação fértil, onde a exuberância das idéias sempre fluía com a natural força e a cristalinidade das águas que jorram das cachoeiras.

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No ról imenso de suas publicações, destaca-se um trabalho extraordinário, que se constitui hoje num legado maravilhoso da nossa literatura infantil.

Dona Benta, Pedrinho, Marquês de Sabugosa, Emília, Rabicó, além de muitos outros personagens, representam a fixação imaginativa de um rosário impressionante de estórias, amenas e gostosas, bem dosadas, bem temperadas e úteis, como até agora ninguém foi capaz de igualar.

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Do ponto de vista literário, Lobato fôra versátil e eclético. Com a mesma facilidade que criava estórias imaginativas infantis, abordava problemas nacionais, podendo-se afirmar que, como jornalista e literato, ninguém antes dele conseguiu abordar, com mais propriedade, o problema do petróleo, em época em que o “ouro negro” nem siquer era explorado no país.

Não especializava-se, mas detinha um pendor de argúcia simplesmente extraordinário, em observações de política e economia.

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Tinha outro lado oculto: a sátira e o humorismo.

Deste último, pretendo falar.

Contratado, certa feita, pelo farmacêutico Cândido Fontoura, Monteiro Lobato imaginou, criou e publicou um avulso, caracterizando o protótipo de nosso caboclo.

A publicação tinha eiva de interesse comercial, é certo. Mas a estória conseguiu retratar, de maneira insofismável, nosso sertanejo desamparado, alheio ao conforto dos dias atuais, ignorante de noções comezinhas de higiene, emergido na simplicidade santa dos pobres e humildes, aqueles que não conseguem concentrar nos próprios corações, a maldade, a inveja, a malquerença ou o desejo de praticar o mal.

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Esse “retrato”, Monteiro Lobato configurou-o no caboclo pusilâmine, preso a um mundo restrito a um “habitat” de curtos horizontes, submerso num conformismo desolador, que se constitui, para ele, caboclo, num lugar comum, sem esperanças de mutabilidade.

Lobato criou o “Jéca Tatuzinho”.

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Jéca Tatuzinho em seu mundo de miséria era dominado por um manto de apatia, traduzida pela resignação e conformismo da própria vida.

Quando lhe recomendavam para capinar a roça, dizia: “Num pága a pena… o mato crésci ôtra veis…”.

Não matava as formigas: “Num pága a pena… Elas násci ôtra veis…”.

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Tudo, para ele, “não pagava a pena”, até que um médico o conheceu, compadeceu-se dele, ministrou-lhe e recomendou-lhe o tratamento para a verminose e o impaludismo.

E a estória mostrou os quadros seguintes, com o Jéca Tatuzinho recuperado após o tratamento. O mesmo com a esposa e os filhos. O novo espírito de trabalho e otimismo, substituindo a pusilanimidade anterior. O sucesso, o progresso, a bastança, enfim.

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Aproximamo-nos das eleições de novembro, sem definição político-situacionalista local, que se refere à escolha de um candidato de Marília para concorrer à Assembléia Legislativa.

Certamente, repete-se em proporções outras, o caso do Jéca Tatuzinho por estas bandas:

- Quar… num paga a pena…

Extraído do Correio de Marília de 31  de maio de 1974

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