quinta-feira, 18 de abril de 2013

Do profissional e da profissão (18 de abril de 1974)


O jornalista é um termômetro, que, por natureza e fé própria do ofício, mede a intensidade da opinião pública.

Ele chega a perceber, melhor do que muitos outros, detalhes aparentemente insignificantes mas de efeitos muitas vezes completamente diversos daquilo que podem parecer.

Não que seja por isso, excepcional ou diferente. Apenas que, por decorrência da própria profissão, consegue com o decorrer do tempo de atividades, ganhar essa condição de perspicácia observativa.

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É uma coisa natural, plausível, perfeitamente justificável e aceitável. Ocorre com as demais profissões, também.

O motorista profissional, por exemplo, depois de muitos anos de lutas, sempre deparando-se com momentos e circunstâncias imprevistas, acaba demonstrando a conquista de uma presença de espírito e de reflexos práticos e rápidos, muitas vezes considerados incríveis, mas que demonstram os frutos e os resultados da praticabilidade operacional duradoura e constante, no exercício da profissão.

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O médico, qualquer que seja a sua especialidade profissional, clínica ou cirúrgica, vai ganhando com o decorrer de suas atividades da profissão, mais e maior competência médica, como fruto e decorrência das atividades efetivas, que reforçam e consolidam os conhecimentos teóricos dos bancos escolares e as experiências estudantis exercidas nos laboratórios e nas salas de cirúrgia.

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Daí, a razão, muitas vezes nem sempre bem compreendida, do jornalistas “enxergar” fatos e coisas que outros, leigaços no confronto com uma atividade especial ou específica, não conseguem “ver”.

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Daí, também, a motivação do velho e tarimbado motorista profissional, que mesmo estando fóra do serviço, aparentemente alheiado às suas atividades profissionais, observar de pronto e até sem o desejar, uma simples “barbeiragem” cometida por um outro motorista qualquer, que muitos outros, mesmo próximo, não conseguem perceber.

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Ou do médico, que, mesmo em folga, que distanciado até de seu consultório, hospital ou ambulatório, “ver” de imediato, num transeunte ou num estranhom, sem a realização de qualquer exame clínico, que o sujeito tem sintomas de hepatite ou de sub-nutrição, ou chega a ser aparentemente portador de uma lesão sifilitica.

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Representa isso, além da competência profissional, o pôder observatório especializado, uma força natural e perfeitamente humana. Esse força arraiga-se nas criaturas, tomando formas maiores com o decorrer do próprio tempo.

Não há, portanto, nada de diferente ou de excepcional no exercício de qualquer profissão definida e exercida.

Em contrário, se esse fenômeno não for sentido e nem verificado, um profissional, qualquer que seja a sua especialidade, técnico, letrado ou não, aí então estará residindo a incompetência, ou o desisteresse, mas mais consubstancialmente a incompetência.

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P.S. – Este escrito encarna uma espécie de prefácio, para melhor arrazoar e justificar, o artigo que escreverei e publicarei na edição de amanhã (19.4.1974).

Extraído do Correio de Marília de 18 de abril de 1974

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