quarta-feira, 10 de abril de 2013

A lembrança de um homem (10 de abril de 1974)



Decorria o ano de 1944.

Encontrava-me na Itália. Era eu um dos 25.000 soldados de nosso Exército, que integrava a gloriosa Força Expedicionária Brasileira, na luta armada e sem tréguas da II Grande Guerra Mundial.

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Haviam-me esvaido, quase que completamente, as esperanças de sobrevivência. O bombardeio ensurdecedor, nos momentos alucinantes dos combates, frangalhava os nervos, conturbava as mentes. O medo teimava muitas vezes em antepor-se à razão e até ao próprio instinto de conservação, condição nata das criaturas humanas. Obuses e estilhaços faziam vítimas, seccionando membros, dilacerando corpos. O espectro da morte abria um manto, tentando sempre aumentar o seu reino.

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Foi após um desses duros combates que recebi uma carta. De Marília. Portadora de esperança, de conforto, de notícias familiares. Conduzia também um pedido: que eu escrevesse, sempre que possível fôra, algumas crônicas ou matérias de observação, sobre a guerra, sobre os pracinhas brasileiros. A solicitação, dizia-me o missivistam, meu querido mano Alcindo (Braos Padilha), partira do diretor do jornal “Correio de Marília”, senhor Raul Roque Araujo.

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Manuscritas, em pedaços de papel inadequedo, rabisquei alguns trabalhos jornalísticos, que foram posteriormente publicados por este jornal.

Findou-se a guerra. Com as mercês de Deus, com a saúde abalada, trazendo comigo a herança maldita da psicose de guerra, vim ter a Marília.

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João Neves Camargo era o prefeito. Venâncio de Souza, presidente da Sociedade Amigos de Marília. Basileu de Assis Moraes, presidente da Comissão de Recepção aos pracinhas marilienses.

E Marília recebeu, condignamente, seus heróis de guerra. Como também o Brasil todo. Embora hoje eles não passem de cidadãos simples, valentes defensores da Liberdade e Democracia, aos quais a Pátria, ao envés de ser Mãe, tornou-se madrasta.

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Findas as homenagens que o povo de Marília tributou aos seus pracinhas, fiz em nossa cidade minha primeira visita: ao sr. Raul Roque Araujo, diretor do CORREIO DE MARÍLIA.

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Foi um colóquio gostoso, foi o nascimento de uma amizade e de uma simpatia recíproca. Foi o recontacto com a redação de um jornal e o cheiro acre das tintas tipográficas. Quando me despedi, saí convencido de que havia encontrado um amigo.

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Algum tempo depois, o grande e saudoso jornalista Luiz Franceschini deixava o jornal para transferir-se para São Paulo. Henrique Baptista Júnior substituira Franceschini, mas por pouco tempo.

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Já era o ano de 1946.

Eu havia ingressado como funcionário do Banco Mercantil de São Paulo S.A., quando Raul Roque Araujo mandou chamar-me:

- Quero que você saia do Banco para assumir a secretaria de redação do jornal – foi o que falou.

Sai do Banco. Entrei no “Correio de Marília”.

Aqui estou.

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Hoje, 10 de abril, fazem 10 anos que o sr. Raul Roque Araujo faleceu.

Foi a razão dessa lembrança.

A lembrança de um homem.

Extraído do Correio de Marília de 10 de abril de 1974

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