sexta-feira, 22 de março de 2013

Transmissões parlamentares (22 de março de 1977)



Cogitam alguns políticos locais do estabelecimento das transmissões radiofônicas das sessões de nosso Legislativo.

O truncamento de tal estado de coisas, no ano passado, decorreu da medida imposto pela Polícia Federal, que se estribou em dispositivo legal.

Sendo assim, subtendende-se que não será decisão da Câmara e nem da Presidência, que poderá provocar a volta do referido expediente. Só a Polícia Federal é que poderá revogar sua própria decisão.

Se engano não houver, quando da medida em apreço, parece que a Polícia Federal não adotou a providência em caráter genérico e sim específico.

E a medida atingiu diretamente cidades-chaves e grandes centros.

Lins, frequentemente citada por aqui, não é cidade-chave e nem grande centro e não foi atingida pela medida em tempo hábil.

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As transmissões radiofônicas dos trabalhos camarários representam uma faca de gumes. Pelo menos em Marília isso ficou provado.

Se, por um lado, enseja ao eleitor, a faculdade de acompanhar os trabalhos do candidato que ajudou a eleger, por outro propicia a proliferação de desemfreada demagogia.

Vimos no passado, por parte de muitos vereadores, uma verdadeira “psicose de discursar”. E o povo sofreu com os ouvidos entregues a muitos casos de asneiras, a discursos ocos e alguns sem nexo, embora tivesse ouvido muitas palestras e defesas de pontos de vista, sólidos e lúcidos. Infelizmente, estes foram em escala menor.

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O parlamentar consciente e bem intencionado deve ficar ciente e convicto de que o improviso é muito traiçoeiro. E, com tal, pode expor ao ridículo ou comprometer um orador.

Em Marília aconteceu isso seguidas vezes.

Sem contar-se com algumas asneiras proferidas pelos microfones, como casos em que se discutiram uma carroçada de coisas e fatos, inclusive citações de exemplos e de previsões negras, quando, em verdade, a essência da matéria em pauta era bem outra.

Tudo por causa dos microfones e do fascinio que os mesmos exercem, notadamente nos incautos e muitas vezes irresponsáveis.

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Os exemplos do passado não conseguiram ainda recomendar ou garantir a exposição de uma defesa, em favor do retorno das transmissões camarárias.

E ninguém poderá assegurar que isso venha a acontecer.

Cinjamos-nos, por exemplo, ao ocorrido na primeira reunião camarária mariliense deste ano. Se na ocasião os microfones estivessem abertos, a própria edilidade teria forjado uma imagem pouco brilhante de suas funções iniciais.

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Porque, em verdade, nem todos os que usam microfones sabem usá-los devida e convenientemente. Mas que gostam, isso gostam. Existem algumas pessoas que não comem os microfones porque estes, além de caros, são intragáveis e ingeríveis.

Em todo caso, devemos aguardar o pronunciamento da Polícia Federal sobre o assunto.

Porque, em verdade, bom seria se todos os políticos fossem ponderados, modestos e recatados para falar.

E que, na sua maioria, não sentissem a atração apaixonante – e como tal incosequente – pelas “latinhas”.

Aí, sim.

Extraído do Correio de Marília de 22 de março de 1977

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