terça-feira, 12 de março de 2013

Gírias e tatuagens (12 de março de 1977)



Dia outro, em palestra com um amigo, veio à tona do colóquio, o assunto relacionado com a gíria de nosso vernáculo.

Efetivamente, o brasileiro é pródigo em inventar novas expressões, novas definições, palavras de sentido antagonico. Todavia, há dois generos desse mesmo campo. As gírias espontaneas, especialmente cariocas e as gírias de malandros e cadeieiros.

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Eu mesmo costumo usar gírias em meus escritos.

Gírias sadias, bem entendido. Gírias naturais, dessas que enriquecem, senão o vocabulário oficial, pelo menos o sentido usual da identificação e discriminação das coisas.

Não aprecio as gírias de cadeia e de malocas e algumas não entendo bem.

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Um distinto contava sobre um romance improvisado, em que mal havia visto uma dama, com esta havia trocado olhares e iniciado uma palestra, para acabar indo visitar a casa da mesma.

Contou assim:

- Eu tava de beleza, cismando as coisas, fazendo tempo para rango. Desdaí vinha acontecendo um mulheraço, que deu logo luz baixa e luz alta pro candango. Eu assuspeitei da moleza i persegui a caça, arcançando e botando saliva nela. Ela arquejô no papo e pois se mandô pro cerrado, em busca do mocó. Chegámu no pedaço e o papo foi bacana do céu na terra. Falô?

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Outro dia, num bar da cidade, acercou-se de mim um cara que eu jamais havia visto mais gordo. Pediu-me um cigarro. Disse-lhe que não fumava. Pediu-me que lhe pagasse uma pinga. Neguei-lhe o pedido.

Mas o cara, ao envés de dar a conversa por finda, resolveu reanimá-la.

E voltou a falar:

- Meu camarada, gente boa, tu qué esquentá a guéla, pédi que eu págo a cangibrina.

Ia sair, mas quem estava comigo, segurou-me, piscando o olho, como a pedir que continuasse a ouvir. E foi o que aconteceu.

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O estranho dirigiu-se novamente para mim, dizendo:

- Tu é genti boa, meu camarada. Tu é fazendêro, isso eu sei. Tu é genti fina, meu camarada.

Eu estava para “estourar” com aquelas conversa mole e de giria, me acabei aquiescendo ao novo pedido de meu companheiro, que fazia questão de provocar o estranho, para que ele continuasse com suas baboseiras.

E o homem continuou:

- Tu é gente fina, ó meu… tú é fazendeiro, isso eu sei, meu camarada. Eu também sou gente fina. Eu também tenho meu dinheiro, ó meu.

E prosseguiu:

- Eu sô encanadô, sô piloto-aviadô, sô sargento da Força Pública. Já tive fazenda, mais perdi ela. Num tô nem ai. Sei dirigi tratô e sô motorista também. Mais minha carta tá bastecida, tú sábi u quié? Tá vencida de prazo, mais si eu quizé ôtra é só falá cum us capitão du Exército, que são tudos meus amigos…

Não aguentei mais. Saí.

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O amigo que estava comigo, veio em seguida, glosando o fato de sempre acontecer isso comigo: bêbados procuraram-me para longas e inúteis conversas.

O homem que havia contado toda aquela baboseira, estava todo tatuado. E meu amigo observou:

- Nota sempre isso. As pessoas tatuadas que você encontrar, podem resumir-se nesta porcentagem: 5 por cento, em casos de curiosidade ou de ingnorância. 5 por cento, para os casos de ex-presidiários.

Foi aí que liguei a abundância de girias, com as tatuagens, achando que meu amigo deveria ter razão.

Extraído do Correio de Marília de 12 de março de 1977

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