terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Feliz carnaval, leitores! (19 de fevereiro de 1977)



Há muitos anos, palestrava eu com um sacerdote, que era vigário da Matriz de Santo Antonio local.

No decorrer da palestra informal, veio à baila assunto relacionado com o carnaval.

A questão fora motivada porque o então presidente Janio da Silva Quadros havia anunciado sua decisão, de proibir o uso de lança-perfumes no carnaval, como também coibir a prática de brigas de galos.

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E, durante esse colóquio, indaguei do padre, o “por que” da Igreja ser contra o carnaval.

O religioso dissera-me que a Igreja era em princípio contra o carnaval, no que se referia ao paganismo de suas práticas, mas isso não significava que era contrária ao direito das criaturas divertirem-se.

E foi mais além o sacerdote, dizendo-me mais ou menos isto:

A Igreja não aprova e nem poderia aprovar os excessos que se costumam cometer, sob o pretexto do carnaval.

A Igreja faculta, louva e até colabora para que o povo possa divertir-se, mas uma diversão sadia, sem maldade, sem exgeros, sem prejuízos para a moral e a dignidade humana, onde o espírito dos brincalhões seja puro e não de prevenção, não espírito voltado para o álcool e o sexo, como geralmente se vê e se tem conhecimento, tudo sob o escudo das folias carnavalescas.

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Dizia-me o padre, que as brincadeiras sadias são necessárias e úteis para o espírito e para o próprio corpo.

O lazer é também uma preocupação da Igreja e para tanto existem centros comunitários, colonias de férias, espectáculos teatrais, atividades desportivas, etc., que contam com o patrocínio, supervisão e interesse da Igreja – disse o sacerdote.

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Indaguei na ocasião se porventura um grupo de marianos, filhas de Maria e representantes de outras entidades religiosas pretendessem brincar o carnaval, se ele, o padre, aprovaria.

Veio a resposta: sim, aprovaria, desde que as brincadeiras fossem sadias, em respeito mútuo, sem excesso e sem quaisquer abusos.

Fui mais além, indagando do padre, se, nesse caso, ele estaria disposto a ceder o salão paroquial para que os integrantes de tais irmandades brincassem o carnaval.

E a resposta do sacerdote:

Desde que o salão não tenha ligação direta com o prédio da Igreja e desde que me sejam provadas as boas intenções dos pretendentes, não terei nenhuma dúvida em atender.

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Despedi-me do padre e fiquei por muito tempo pensando na palestra do mesmo, na sua sinceridade de ponto de vista.

Eu havia ouvido algo que antes ignorava e que me havia elucidado uma questão que desejava saber.

Gostei.

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E, como hoje é carnaval, festa do povo, festa que se tornou tradição entre nós, recordei desse episódio.

Como tal, estou também a formular votos de um feliz carnaval aos marilienses em geral e aos leitores desta coluna, em especial.

Que se divirtam todos, com respeito mútuo, sem exageros, sem excessos.

Afinal, quem trabalha o ano inteiro, quem dá conta do recado e desempenha a contento as atribuições de suas responsabilidades, tem o direito de higienizar a mente.

Feliz carnaval, leitores!

Extraído do Correio de Marília de 19 de fevereiro de 1977

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