sábado, 16 de fevereiro de 2013

Artigo sem título (16 de fevereiro de 1977)



A sala era pequena e só tinha uma porta de entrada.

Nem mesmo janela, ou siquer um “vitraux” – conforme se escrevia naquela época.

Um sofá, duas cadeiras e a escrivaninha.

A sala era a redação e administração do jornal. Tinha ligação com outros comôdos de fundo e separava-se por uma porta de madeira do tipo vai-e-vem.

Na porta referida, em preto com sombra branca estava escrita a palavra “Tipographia”.

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Sentado junto a escrivaninha, havia um homem. Moreno, baixinho, com calvice acentuada. Aparentemente era ou um homem cansado ou um neurastenico.

Estava sério e escrevendo a lapis sobre um papel em formato de tira.

O homem era o redator do jornal. Portanto, “o bom”, respeitado, admirado.

Escrevia raciocinando, como se estivesse preocupado ou encontrando dificuldades para deitar no papel, através da ponta do lapis uma idéia qualquer. Porisso, estava tão absorto que nem me vira ali parado na porta.

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Em dado momento, ao levantar a cabeça para buscar alguma idéias ou catar algum vocábulo, deparou com o rapazinho raquitico e não muito bem vestido, ali na sua frente.

O rapazinho era o autor desta coluna.

O homem perguntou o que eu desejava, mas não me pediu para entrar e nem para sentar.

Avancei para ele, com uma “dá licença” muito sem graça. E meio tituveante, fui dizendo que eu havia escrito algumas crônicas e que gostaria de submetê-la a sua apreciação.

O homem mudou o procedimento, encarando-me. Para mim, parecia um ser sobre natural, uma inteligência rara. Inteligência rara era mesmo e só com o passar do tempo melhor pude convencer-me disso.

- É isso ai? – perguntou, apontando para os papéis que eu trazia na mão.

Respondi afirmativamente com um aceno de cabeça e estendi os originais que havia levado. Estavam datilografados em papel almaço, bem caprichadinhos, sem uma letra remontada.

O homem tentou esconder um sorriso e disse:

- Menino, para jornal não se escreve sim com exterior. Escreve-se com capricho interior.

Eu não consegui entender muito bem aquilo.

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O homem não leu os originais, como eu pensava que fosse acontecer, o que de certa forma me decepcionou.

Limitou-se a dizer:

- Estou muito ocupado, agora. Deixe ai, que depois eu dou uma espiadela.

Sai um tanto aborrecido.

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No dia imediato, voltei.

O homem – chamava-se Eloy – recebera-me mais calmo e com mais atenção. Mandou-me sentar. E foi dizendo:

- Menino, você não fugiu à regra… todos os principiantes fazem o mesmo… crônicas de amor e lirismo, ou então poesias… seu português precisa ser mais aprimorado… a idéia não é das piores… mas você precisa gastar muitos lapis ainda para poder publicar algo em jornal.

E devolveu-me os originais.

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Sai frustrado.

À noite, depois de ter regressado do Colégio e no meu quarto – eu dormia sozinho, de favores, num pequeno quarto no quintal de uma casa comercial – passei a pensar no que ouvira (… você precisa gastar mais lapis…).

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Gastei.

Tempo depois, voltei ao jornal. Entrei com mais confiança. Cumprimentei e disse de chofre:

- Seu Eloy, gastei lapis, escrevi muito… faça o favor de ver tudo isso… a semana que vem regressarei para saber o resultado…

E antes que ele pudesse responder algo, deixei a papelada sobre a mesa e sai.

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No dia outro, na parte social do jornal, a secção era aberta com uma das crônicas que havia entregue.

Quase morri de contentamento. Corri com o jornal atraz de todos os meus amigos para mostrar a publicação.

À tarde, fui ao jornal.

Seu Eloy disse:

- Menino, modifique isso de assim para assim – explicou o que pretendia – e não use tal ou tal processo (continuou a explicar).

E para minha surpresa:

- Você também vai ver o jogo em Pirajuí?

Respondi que sim. E o homem:

- Então anote os nomes dos jogadores, os dados todos, gols, nome do juiz e os resultados, para fazer a reportagem do jogo, tá ouvindo?

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Não dormi e não via chegar o domingo, para que acontecesse o jogo.

Julguei-me importante, muito importante, com minha primeira reportagem.

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É que hoje é o Dia do Repórter.

Porisso, saiu este artigo sem título.

Extraído do Correio de Marília de 16 de fevereiro de 1977

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