sábado, 26 de janeiro de 2013

Presente de grego (26 de janeiro de 1977)



Não se trata aqui da repetição histórica, mas sim da lembrança do tragi-comico e caricata episódio que de há séculos caracterizou-se pejorativamente como “presente de grego”.

Nem analogia existe, embora, grosseiramente, possa vocar-se a lembrança do gigantesco cavalo grego, com o “bucho” cheio de soldados, que invadiram e dominaram a extinta Tróia.

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E desde então, todas as vezes que um aparente bom negócio se traduz numa transação, senão péssima, pelo menos decepcionante ou prejudicial, ou mesmo contundente, ou ainda envernizada pela frustração, é costume dizer-se que tal se constituiu num “presente de grego”. Especialmente se se esperava com ansiedade, um resultado positivo e se alimentava um antigo anelo, que a realidade da frustração veio cavalgada na besta da decepção.

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E aconteceu, isto.

Aqui em Marília.

Com marilienses, sim.

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Cecap, vindo de encontro ao desespero de muita gente, anunciou a construção de casas populares. Prefeito Pedrão lutou de unhas e dentes para conseguir isso. Até declarou guerra à Cohab e disse cobras e lagartos, não em sentido intransigentemente direto, mas sim irreversivelmente mariliense, na defesa dos interesses de nossa gente.

E o que adiantou foi que a Cecap acabou dando um verdadeiro presente de grego aos marilienses, configurado nos planos de vendas das casas chamadas populares, que se dispos e que iniciou a construir em Marília.

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Muita gente de boca para “pegar” uma casa. Casa destinada a abrigar para muitos a esposa magra e os filhos famintos.

Casa sonho, casa lar.

Casa impossível, sonho desfeito.

Pior do que isso: sonho transformado em pesadelo.

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Ex-prefeito de Tupã, odontólogo Walter Pimentel, ofereceu desculpa. A única que poderia ser oferecida: os preços e localização dos terrenos são bons e como tais não comportariam edificações de casas eminentemente populares. Isto é, estandartizadas, padronizadas, tais como bolinhos de uma mesma fornada.

Porisso, os preços altos.

Em termos de casas populares, de poupanças, de fundo de garantia, de PIS, nada têm as mesmas de populares. No terreno de amortização.

A renda familiar, mínima exigida, transpira exigência muita.

A menor, vai exigir cerca de três mil cruzeiros de renda.

Tem jornalista responsável que nem isso ganha por mês – para citar apenas um exemplo.

Mesmo grandes empresas, sólidas, radicadas, consolidadas, não pagam aos mais importantes de seus empregados quantias que tais.

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Um assunto sério que tornou-se ridiculo.

É impossível.

Cecap procura doar aos marilienses um presente de grego.

Infelizmente.

Para azar de muita gente.

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Não seria de bom alvitre – e pelo menos mais humano – fazer-se uma revisão dessas tabelas, a fim de que as casas anunciadas venham de fato a tornar-se “populares”?

Extraído do Correio de Marília de 26 de janeiro de 1977

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