terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Manguinhas de fora (22 de janeiro de 1977)



Começo do ano de 1964. Situação nacional intranquila. Jango e Brisola permitindo que assalariados de Moscou bagunçassem o coreto.

Maus brasileiros, sobretudo maus patriotas, exultavam: “comunismo vai entrar”.

Vagabundos, mas seguidores da doutrina exótica, preparavam-se para “receber” residências e fazendas daqueles que ganharam-nas com um trabalho suado, fruto de anos de trabalho constante.

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Caboclo, ingênuo, ignorante de tudo o que ouvia dizer e que não entendia, conversava com o outro:

- Cumpádi, diz-que u tár di cumunismo vem aí.

- Dêxa vim, qui nós avacáia êli.

E o outro, mais curioso, queria saber o que era mesmo o comunismo que se anunciava que viria e o que representaria afinal.

Pergunta ao compadre da cidade, homem que lia jornais, ouvia rádio, assistia televisão e conversava com o farmacêutico e o gerente do banco.

E o homem da cidade explicou, então, ao ingênuo matuto:

- O senhor me dá a palha de milho, o fumo de corda, o canivete. Eu pico o fumo, desfio ele, enrolo o cigarro, ponho na boca. Você me empresta o fósforo ou isqueiro. Eu acendo o cigarro e pito. Isso é comunismo.

Indagou o outro:

- O fumo é meu, a páia é minha, o fórfe é meu, o canivete é meu, mecê faiz u cigarro cum o meu materiá e pita… i eu u que faço?

- Você cóspe… isso é comunismo.

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Mas o outro caboclo não havia entendido e desejava saber melhor sobre o assunto.

Então lhe explicaram:

- Comunismo é a igualdade para todos, assim, o que é teu, é meu. Mas o que é meu, é meu mesmo, entendeu?

- Você, di qui nação é?

- Eu sô mistura di pernambucano com baiana.

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E o outro dizia com certo falso orgulho e caracterizada insegurança:

- Eu já sô di bem longi… sô di Macapá, sábi? É longi pá pésti… lá pru ladu di Goias, mais mais pertu di Curibita…

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Dois assistentes, boquiabertos. O início. Depois, a assistência cresceu mais. Eram uns quatro ou cinco. E o homem bazofiava. Falava. Empolgava os incautos que ouviam tudo. E ele crescia.

Contou:

- Uma veiz tive nu Japão. Vocês precisam ver como é difícil comer com pauzinho…

Todo mundo riu.

O homem era um encanto.

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Casualmente, eu ouvia tudo. Parecia não ouvir, porque fingia que lia.

Mas ouvia. Deliciava-me por dentro.

Mas acabei “explodindo” contra o homem, quando ele disse a maior mentira deste ano.

Disse que era jornalista!

Extraído do Correio de Marília de 22 de janeiro de 1977

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