sábado, 19 de janeiro de 2013

A superstição (19 de janeiro de 1977)



Dizem que a superstição é própria dos ignorantes ou das pessoas de pouca cultura.

Não é.

A superstição existe em todas as gentes, em maior ou menor escala. Ocorre que é que muitas pessoas tentam ocultar sempre esse sentimento.

Mas em cada ser há um resquicio de superstição, isso há. Mesmo negando-o.

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Eu era garoto ainda.

Vivia numa miséria franciscana, pois tinha todas as despesas de uma pessoa adulta e os rendimentos de um moleque.

Pagava a mensalidade escolar com sacrifício ingente, pagava pensão – só comida – e dormia de favor, num quartinho existente no quintal de uma loja de ferragens. Não tinha condições de pagar lavadeira, porisso eu mesmo lavava minha roupa, que estendia numa cerca balaustre, sem torcer, para que pudesse ser usada sem passar.

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Foi quando apareceu na cidade, um tal de “Professor Eurico”, profeta e adivinho, um sabe-tudo. O homem respondia consultas sobre as mais variadas e incógnitas perguntas. As respostas eram feitas através da emissora local, diariamente e via jornal semanário, aos domingos.

As perguntas formuladas para resposta pelo rádio, eram pagas. Uma quantia pequena, que o homem anunciava destinar a determinada entidade de benemerência.

As respostas pelo semanário, eram de graça e como eu não dispunha de dinheiro para pagar a resposta pelo rádio, fiz minha “consulta” pelo jornal.

E aguardei.

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No domingo seguinte, assim que levantei, fui direto ao Bar do Zé Ribeiro, para ver o jornal. Folheei ávido o hebdomadário e deparei com a resposta que pretendia.

Fiquei decepcionado e não dei crédito ao que me fora respondido. Achei a resposta bastante absurda e sem fundamento. Mais do que isso, de previsões impossíveis.

Comigo mesmo, não pude concordar com o futuro que o “professor” me antevia.

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Guardei o referido recorte e só há poucos anos passados é que me defiz dele.

Com o passar do tempo, percebi que o “vidente” havia acertado muito e se aproximado bastante de todas as suas previsões para com meu porvir.

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Disseram-me a resposta:

1.    Você vai perder seu emprego por uma crise provocada por gente de fora.
2.    Você percorrerá mares e conhecerá outros povos.
3.    Haverá ocasiões em que sua vida não valerá nem um tostão, mas no final você sobreviverá.
4.    Terá sucesso em escritos e publicações.
5.    Casará e terá muitos filhos.
6.    Será rico depois dos 45 anos e morrerá depois dos 70.

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Menos o item seis, todas as previsões se consumaram.

1.    Aquele tempo, quem fazia o curso ginasial era chamado de “bacharel”. Apareceu um “bacharel” vindo do norte e acabou fazendo amizade com meu patrão e indo comer e domir na casa dele. E esse “bacharel” conseguiu “encher a cabeça” do meu patrão, tendo eu sido despedido e ele ficado com meu emprego.
2.    Acabei viajando através do Atlântico, depois do Pacífico e do Mar Tirreno.
3.    Escapei de morrer na guerra, mesmo tendo outros patrícios sucumbidos ao meu lado e junto comigo.
4.    Consigo ganhar o pão-de-cada-dia escrevendo e já tenho a credencial de jornalista internacional.
5.    Certo.

Só falta a previsão de número meia dúzia, para que tudo o que o “Professor Eurico” falou, venha a dar certo.

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Para finalizar e comprovar que existe superstição, vem o caso daquele distinto que perguntou ao outro, se ele tinha religião. E veio a resposta:

- Graças a Deus, sou ateu.

Extraído do Correio de Marília de 19 de janeiro de 1977

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