quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Viagem aos Pampas (V) (5 de dezembro de 1973)



Enquanto permanecia observando os nomes das placas dos caminhões, um gaucho de mim aproximou-se. Mediu-me dos pés à cabeça e perguntou, apontando para um “mercedão” estacionado, com placa de uma cidade de Santa Catarina: “É teu este aí?”.

Respondi que não, que o “meu” éra outro, apontando para o Scânia com placa de Marília. O gaucho encarou-me novamente e voltou a indagar: “Mas não (é) o teu este?”, reapontando o “mercedão”. Neguei novamente.

E o homem, visivelmente “bronqueado”, apontou para um letreiro na longarina trazeira do “Mercedes”, esbravejando: - “Isto é coisa que se escreve?”.

Foi aí que observei o letreiro e tive que fazer força para não rir. Na trazeira do caminhão catarinense, estava escrita a seguinte “gozação” aos gauchos: “Abre teu ôlho, tchê”.

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Às 6 horas passávamos por Joinville, cidade de 125 mil habitantes, 500 indústrias e milhares de bicicletas. A predominância da imigração alemã nota-se logo. As residências, em maioria, apresentam em seu aspecto arquitetônico, fachadas e coberturas típicas da secular engenharia alemã. A população, em maioria também, apresenta a tez alourada em geral. O sotaque de pronúncia, difere igualmente, do pessoal aqui de São Paulo e mesmo do norte paranaense.

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Embora não adentrando, deu para observar-se as alvas praias do Belneário de Camboriú, um dos pontos turísticos mais famosos de Santa Catarina. Mar verde, relativamente calmo. Hotéis e colonias de férias, muito trânsito, banhistas nas praias “desligados” de seus afazeres. Praia bonita, lembrando Guarujá.

Os catarinenses orgulham-se muito desse Balneário, que atrai gentes de todas as partes do Brasil, da Argentina e do Uruguai.

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Às 9 horas, passamos pela Capital catarinense Florianópolis. Nas imediações de Florianópolis, o veículo teve que parar forçosamente. Antes do sinal de “parada obrigatória”, percebia-se um movimento diferente à margem da rodovia e quando nos aproximamos é que vio, várias dezenas de soldados do Exército, trajados à paisana, empunhando metralhadoras. Além de asfalto, ocultos nas plantações e vegetações, lobriguei barracas militares e jipes do Exército.

Um praça, com uma metralhadora “Ina” na mão, pediu para serem abertas as duas portas do veículo, exigindo documento de identidade. Imediatamente, exibi uma cédula. O militar apanhou, olhou bem para a fóto, encarou-me, devolvendo a cédula e (talvez sem querer, fez uma continência) não examinou o documento do motorista, determinando o seguimento da viagem.

Clóvis ficou admirado do militar ter visto apenas meu documento, dispensando o dele e ter feito continência.

Expliquei ao motorista qu eu havia usado de psicologia: ao envés de exibir a cédula de identidade da polícia civil, exibi a “marca d’água” do Exército que me identifica segundo sargento da reserva.

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Em algumas paradas posteriores, tentei obter informações da razão daquele movimento de revista. Não consegui ficar sabendo as razões. De início, supuz a viabilidade de algum movimento subversivo ou algum roubo à banco. Mas nada fiquei sabendo.

(continua)

Extraído do Correio de Marília de 5 de dezembro de 1973

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