terça-feira, 16 de outubro de 2012

Política golgotista (16 de outubro de 1973)



Apesar de já residido em São Paulo, a despeito de orgulhar-me da Capital do meu Estado, não consigo tolerar longa permanência na paulicéia.

Quiçá seja em razão do ambiente de vivença, ou talvez póssa ser em circunstância da diversificação do “modus operandi” entre a vida pacata do interior e a agitadíssima vida do grande centro, o certo é que não aprendi a apreciar o corre-corre da vida paulistana.

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O preço do progresso de São Paulo, tornou a cidade desumana demais, uma usina geradora de tensões nervosas e desassossego.

É um corre-corre tremendo. Ninguém conhece ninguém. Tudo na base da gozação e da xingação.

O Paulistano pobre e assalariado, que por razões óbvias é obrigado a residir em bairros distantes do centro, fica compulsado a levar uma vida escrava, sendo obrigado a levantar-se alta madrugada para atingir o local de serviço no centro, regressando tarde da noite para o jantar e o necessário repouso.

E pensar-se, que o mariliense reside, por exemplo no Castelo Branco ou na Cecap, trabalhando no centro, considera e reclama que “mora longe”.

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Permaneci recentemente por mais de dois dias na Capital. Embora pouca gente tenha notado minha falta, especialmente os leitores, que se não privaram da leitura diária da coluna.

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É algo aborrecido confessá-lo, mas a gente fica ansiosa por desobrigar-se da missão da viagem e retornar. E sente um prazer infindo, quando novamente pisa o solo mariliense.

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Talvez, por esse motivo, tenha eu recusado propostas de trabalho, altamente representativas e compensadamente remuneradas, em São Paulo.

Bem, isso é uma questão que nada interessa aos leitores.

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Em São Paulo, topei o mariliense Diogo Nomura, que se deslocou de Brasília, para assistir o casamento de um de meus filhos.

Como deputado federal, o parlamentar tem política ingetada nas veias. E como político atuante, deve andar sempre bem atualizado.

E, por essas razões, indagou-me sobre a vigência da política municipal.

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Disse-lhe.

Respondendo pergunta sobre Pedro Sola, afirmei que o alcaide está demonstrando trabalho perseverante, honestidade de propósitos e boas intenções, fato que vem, até aqui, traduzindo-se num conjunto ético de boas perspectivas para o futuro de Marília.

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Diogo asseverou que está satisfeito com Pedro Sola e que de sua parte, está dispensando-lhe toda a assistência que pode dispor, junto ao Governo e às Secretarias de Estado.

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Sobre as “brigas” da Câmara, que Diogo quiz melhores detalhes, não ocultei e não me pejei em afirmar-lhe que o prefeito vem sentindo oposição de alguns edis, embora os mesmos alardeiem que não fazem oposição sistemática.

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Fui mais além, pedindo-lhe que desculpasse, como antigo pessepista: está voltando a vigorar, aquela política nefasta e abjeta do passado.

Já se anseia, em todo o Estado e também em Marília, o pedestal dos semi-deus, em que os líderes políticos dão as cartas e em alguns casos, ignoram ou escarnecem de autoridades.

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Veladamente, está tentando reviver o tempo do “sabe com quem está falando?”. E do “respeito obrigatório” aos mandantes políticos, que encenam o golgotismo contemporâneo.

Diogo concordou, ou pelo menos concordou com o afirmado.

Inclusive, chamei-lhe a atenção, para que, como deputado Federal, melhor se aquilatasse de como se conduz a política dos municípios, inclusive de Marília.

O colóquio não chegou ao final, porque os abraços de outro mariliense – Pedro Savioli – interromperam o referido diálogo.

Extraído do Correio de Marília de 16 de outubro de 1973

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