quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Carta ao Policarpo (10 de outubro de 1973)



Marília, 10 de outubro de 1973.

Caro Compadre Zé da Rua:

Faço votos para que, estas mal traçadas linhas vão encontra-lo no gozo da mais perfeita saúde e felicidade, em companhia da comadre Maria Sofredora e seus onze pimpolhos.

Por aqui, eu mais a comadre Maria da Fome e as crianças, vamos levando a vida como Deus é louvado.

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A gente lutando com a vida, trabalhando de sol a sol, no duro. A noite ganho mais uma quirerinhas, trançando laços e nos dias-santos e domingos, sempre pego um servicinho de poceiro, para ganhar alguma coisa mais. Mas não é preciso tanto assim, porque a vida está muito boa e só sobe um tiquinho de 1,2%, conforme li no Almanaque da Farmácia.

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Tem vizinha reclamando, que o preço da carne está muito caro, mas nós aqui  em casa nunca preocupamos com isso, porque, na verdade, a última vez que comemos um pouquinho de carne, foi quando o coronel deu aquele churrasco, para receber aquele homem da cidade, que diz que vai ser candidato a deputado.

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Televisão eu não comprei, porque senão a família vai ficar vendo tevê a noite e isso cansa muito a vista e o vidrinho de colírio que a gente tem, está quase no fim.

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Outro dia, um fazendeiro muito amigo, deu p’ra gente uma melancia das grandes, que foi uma beleza. Eu, a minha mulher Maria da Fome e as crianças, tiramos a barriga da miséria.

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Mistura a gente tem com fartura por aqui. No “varjão” dá muita serralha e nas quiçaças tem maxixe à vontade. De vez enquando, o meu filho Quincas, pela algumas rolinhas na arapuca e a gente tem uma mistura gostosa e diferente.

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Roupa é o que não falta, pois até no Asilo a gente sempre ganha algumas peças que a comadre conserta e reforma.

Outro dia, numa oficina mecânica eu consegui duas latinhas vazias de óleo de breque e fiz dois candeeiros muito bons. Foi uma grande economia.

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Como você vê, a vida está muito boa e não há nenhum motivo para queixar.

Eu estou satisfeito com tudo e fico fulo de raiva, quando vejo os outros reclamarem que a vida está difícil e que tudo está muito caro. Acho essa gente muito exigente.

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Se a colheita correr bem este ano, qualquer dia vou fazer-lhe uma visita, cumprimentar a comadre Maria Sofredora e os onze afilhados meus.

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Não pósso me queixar da vida, mas tem uma coisa que está me dando muito aborrecimento.

É o meu filho mais novo, o Bombardino.

Esse menino sempre foi e continua sendo muito trabalhador. Me ajuda na lavoura, sabe arrear o cavalo, sabe trabalhar com a enxada e o arado, já tirou diploma do grupo e é muito estimado por todos. Ele escreve as cartas dos colonos e todo mundo gosta do tipo das cartas que ele escreve.

Nos bailes aqui na roça, as moças gostam de dançar com ele e todo mundo admira-lhe a inteligência.

Mas nestes últimos tempos, o menino, que já está com 19 anos, cismou de meter umas idéias bestas na cabeça, o que me está deixando muito triste e chateado.

É que o diabo do Bombardino, meu filho, de uns tempos para cá, teima em dizer que quer ser vereador!

Extraído do Correio de Marília de 10 de outubro de 1973

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