segunda-feira, 2 de abril de 2012

TIPOS & COISAS E CASOS (4)



Tudo aconteceu de maneira que ninguém esperava.

Miro, o Waldomiro da olaria, co-protagonista da estória, nem poderia sonhar com semelhante fato. Mas acabou acontecendo.

Waldomiro gostava e costumava passarinhar. Caçar algumas rolinhas, pombas e perdizes, de preferência. Suas caçadas eram marcadas pelo fracasso. Quase sempre “perdia a viagem”, isto é, pouco ou nada consegui de uma boa caça.

Ele justificava que era falta de sorte, mas o fato mesmo é que o Miro além de ter uma espingardinha do tipo pica-pau muito velha e ultrapassada, era bem ruinzinho de tiro.

Certa feita, disposto a fazer uma boa figura e sonhando azoidamente em mostrar para os amigos todos uma caçada convincente e de fazer inveja, Miro avançou mais do que de costume. Acabou por atingir uma pequena várzea.

Lá perscrutou, observou, sondou, andou e acabou dando em nada. Apenas uma perdiz num vôo rasteiro, inesperado, assustada com o homem, acabou assustando também o caçador.

Nem um tirico, nem uma avezita.

Desanimado, com sempre, Miro resolveu sentar para descansar um pouco. Tomou um gole de café, no gargalo do vidro de xarope de limão bravo que trazia sempre cheinho do móca.

Nisto, uma algazarra tremenda, guinchos, assobios. Era um bando de macacos que viajava de árvore em árvore, saltando com muita graça e maestria de um galho ao outro.

Inopinadamente deu na moringa do Miro de abater um mico.

Engatilhou o cão da espingarda, apoiou-se junto a uma árvore e ficou mirando o lugar melhor. Quando um deles ameaçou pular para o outro galho, Miro pregou fogo.

Aconteceu que dois dos macacos ensaiaram e marcaram o mesmo pulo, para o mesmo galho. Mas um chegou primeiro e com o peso a copa da árvore envergou. Fração de segundo, o outro vinha com o mesmo objetivo, mas encontrou o vácuo e por mais que tentasse agarrar-se em algo, acabou estatelando-se no sólo. A pancada deixou o símio semi-desmaiado. Waldomiro tirou depressa a camisa, enrolando-a no braço e aproximou-se do animal, agarrando-o, com a camisa protegendo a mão das possíveis dentadas do mico.

Waldomiro chegou em casa trazendo o macaco, ao invés de rolinha, pomba ou perdiz.

Aproveitou uma coleira que pertencia ao cachorro Duque e ajustou-a no pescoço do macaco, que batizou com o nome de Chico.

Chico ficou amuado por uma temporada, mas com o passar do tempo já aceitava as bananas e os afagos do amo. Em menos de dois meses o macaco já estava adaptado com o novo lar e provavelmente algo olvidado de seu verdadeiro “habitat”.

Miro, aos domingos, ia até os vizinhos e levava o Chico. Todos apreciavam o macaco e pediam-no para o Miro ou ofereciam-se para compra-lo. Mas Miro era irredutível, achava-se um grande herói pela façanha e um cara muito feliz por ser proprietário do Chico.

Durante o dia, Chico perambulava pela casa, sempre amarrado e à noite Waldomiro punha-o num viveiro, no quintal, onde o macaco dormia.

O que tinha que acontecer, aconteceu.

Miro já tinha muito amor pelo macaco. Dispensava-lhe muitas atenções e carinho.

Num sábado, seria realizado um grande baile no sítio do Bonifácio e Miro estava doidinho para ir, pois pretendia bater um papo longo com a Dirce, filha do anfitrião. De há muito Miro alimentava a esperança de namorar a moça, que diziam na ocasião éra “um pedaço”.

O baile transcorreu todo animado. Miro feliz, pois encontrou a correspondência de Dirce em seus planos e alí começou o esperado namoro.

Lá pelas tantas, o tempo mudou. Começou a ventar, escureceu mais e acabou caindo um verdadeiro toró.

Waldomiro pensava no macaco, que sempre tivera muito medo de chuva e trovoadas.

Ao chegar em casa, na manhã seguinte, Miro teve uma surpresa que quase lhe provocou um colapso: Chico estava dependurado pelo pescoço e sem vida.

Provavelmente, ao tentar escapar do temporal, acabou enrolando-se com a corrente e os suportes que utilizava para pular e acabou morrendo por asfixia.

No dia seguinte, depois do almoço, a namorada Dirce foi até a casa do Miro para saber sobre o macaco, pois o rapaz estivera muito preocupado.

Chegou e perguntou pelo Chico.

E o Miro, sem poder disfarçar profunda e decepcionante dor, explicou:

- S’inforcou-se!

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo com a data de 18/8/1988

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