segunda-feira, 12 de março de 2012

TIPOS & COISAS & CASOS (1)



Ele era o tipo de homem que póde ser considerado “pau para toda óbra”. Ou o homem dos “séte instrumentos”.

Os homens gostavam dele porque era um amigo sincero e uma pessoa capaz de auxiliar ou prestigiar quem merecesse, quando o precisasse. As mulheres achavam que ele era muito “despachado” – maneira de identificar uma pessoa prestativa, eficiente e solícita.

Seu nome era Fulgencio, mas era conhecido pela alcunha de Fulô.

Fulô sabia como ninguém, domar um animal. Laçava como poucos. Entendia tudo sobre lavoura. Sabia benzer bicheiras de animais. Castrava porcos e bois com maestria.

Era exímio em fazer canzís para as cangas dos carros-de-bois.

Bom pescador, conhecia os melhores poços do rio e sabia fisgar bem e retirar melhor um bonito pintado ou dourado, por maior que fosse.

Tinha um casamento, lá ia o Fulô matar a novilha, tirar o couro, esquartejar, desossar, temperar e assar aquele churrasco, que os presentes e comensais, unanimes, elogiavam sem medidas.

Sabia benzer dores de cabeça, de dente. Sabia benzer casos de espinhela caída, quebranto ou mau olhado.

Fulô vivia com a Mariazinha. Maritalmente, sim. Mas fazia questão de esclarecer que era amasiado. “Fui casado lá nu norti, mai nun deu certo... com a Mariazinha vivo bem, arrespeito éla i éla mi arrespeita...” – arrematava com convicção.

Tem festa, Fulô está trabalhando como sempre. Bem disposto, bem humorado. Tem mutirão, Fulô comparece, com a mesma disposição. Tem algum doente, Fulô vai lá, benze, receita ou recomenda um chá, ou ensina alguma simpatia. Tem alguns marotas ou tourinhos para serem castrados, lá vai o Fulô.

Antigamente, sabem-nos os mais antigos, todas as vezes que uma pessoa morria, recebia banho dado por amigos ou parentes. Era tradição, crença, de que o defunto tem que chegar limpo ao céu. Mas o banho não era chamado de banho e sim de “lavagem”. Isto é, dizia-se que fulano e cicrano, lavaram o cadáver...

Então, sempre que morria um homem por lá, chamavam o Fulô para lavar o defunto. Ele ia com boa vontade, arregimentava mais duas ou três pessoas, para a desincumbência da estranha missão.

Nem sempre conseguia auxiliares “em cima da hora”, pois muitos costumavam recusar-se, sob alegações, de que sentiam dó, de que não sabiam, de que estavam doentes ou que precisavam sair com urgência.

Com o passar do tempo, Fulgencio começou a raciocinar sobre o que vinha acontecendo.

- “Tenho trabaiádu bastante prú pessoár... capando raiz i porco... matando gado... fazendo churrasco prás festa... benzendo tudo mundo... benzendo bichêra... fazendo companhia im pescaria i mutirão... tenho lavado muito difunto... i agora (pensava com desânimo), u pessoár tá tirando u corpo fóra i eu ficando sozinho...”

Aí o Fulô pensou em repassar para um sucessor toda a sua prática, toda a sua sabedoria... para que fosse essa pessoa um herdeiro e que mantivesse sua lembrança entre todos, como cidadão prestante.

Se assim pensou, assim fez.

Procurou o Ditinho, rapaz de seus 19 anos, filho de criação do seu Isidoro carpinteiro. Ele gostava do Ditinho, o garoto gostava dele e era inteligente.

Conversou com jeito e demoradamente com o Ditinho. Este se entusiasmou em saber que iria aprender a laçar uma rez, castrar um animal, fazer benzimentos, etc.

Propositadamente, Fulô deixou para o fecho a parte mais melindrosa das funções, qual era dar banho em cadáveres.

Quando viu que tudo estava favorável, atacou no assunto. Ditinho empalideceu, levantou da cadeira, apanhou seu chapeuzinho cata-ovo e disse saindo apressadamente:

- Rapei fóra, sô!

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo

2 comentários:

Nery Porchia disse...

Como é gostoso reler os escritos do Zé Arnaldo. Tanta recordação, mais dele do que dos textos... Mas tem muita coisa interessante que a moçada precisava conhecer de Marilia daqueles tempos.

Blog do Cláudio Amaral disse...

De: Ivan/MKT

Assunto: [José Arnaldo escreve: DE ANTENA E BINÓCULO] TIPOS & COISAS & CASOS (1)

Enviada: 12/03/2012 15:22

Bom demais da conta .....

Gostei muito.

Ivan Evangelista