sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O comércio com a Rússia (23 de dezembro de 1959)

Não, pensem os leitores que iremos analisar nêste artiguete, as vantagens ou não, conveniências ou não, do restabelecimento de relações comerciais com a União Soviética. Absolutamente. Vamos nos referir, apenas e tão sòmente, a Missão Comercial Brasileira que recentemente regressou de Moscou.

Pois, é: sabemos agora, pelo noticiário de um órgão da imprensa paulistana, que o custo das despesas da tal comissão (comissão, ou começão?), custou ao Brasil cêrca de quarenta milhões de cruzeiros (quarenta mil contos de réis). Fóra os preços das passagens, que fique bem claro.

Os estudos foram longos; análises, démarches, conversações. Não sabemos se entrou no programa a tal de “conversa mole” também, mas deve ter-se feito presente. Ignoramos se os russos se interessaram mais pelo café ou pelo outro produto nacional que é o Pelé (muito conhecido na Rússia, diga-se de passagem). Não fomos informados se dêstes estudos se concretizarão os negócios “café x petróleo”, “café x caviar”, “café x vodka” ou “café x comunismo”.

O que está claro, claríssimo como uma luz fluorescente nova e devidamente acesa, é que o Brasil desembolsou 40 milhões com as despesas de “comes e bebes” dos “comerciantes” brasileiros, fóra, repita-se, os custos das passagens da comitiva.

Se pensarmos bem sôbre o caso, se analisarmos que o feijão esteve até há pouco a 80 “alumínios” o quilo, se nos detivermos nos acontecimentos de Aragarças, de Curitiba, no preço da carne, etc., etc., e tal, respondamos sensatamente: não teria sido melhor que ao invés da tal Missão ter ido a Moscou, que aqui tivesse vindo uma comissão russa para o mesmo fim? Pelo menos o Brasil teria economizado uma regular soma (que poderia, por exemplo, ter sido destinada ao consumo de gasolina do “Viscount” presidencial!) e ainda por cima, alguns “rublos” teriam ficado na praça do Rio de Janeiro. Essa economia seria imprescindível, maximé nos tempos atuais, quando o “zé cruzeirinho” anda bastante anêmico. Por outro lado, talvez a economia não tivesse sido feita no caso em aprêço, pois é possível que fossem prestadas homenagens extravagantes aos visitantes, com banquetes opíparos e caros, do tipo “enche-barriga da cupinchada”, passeios a Brasília, etc. e o negócio ficaria na mesma; isto é, o Brasil gastaria milhares e milhares de cruzeiros. Pensando bem, nada há para lamentar, pois o cruzeiro, no Brasil, não vale nada mesmo.

Apenas a notícia do “quantum” das despesas omitiu o montante do custo das passagens. A julgar pelos preços “baixíssimos” do transporte hoje em dia e considerando a “pequena” divergência de cotação existente entre o “mister dólar” e o “zé cruzeiro”, é bem possível que tenham sido gastos outros 40 milhões, ficando assim tudo “acertado” como um montante total e bem contabilizado de 80 milhões de cruzeiros!

Depois da permanência de perto de 15 dias em Moscou, os membros da Missão referida tiveram permissão para “descansar” cinco dias em Paris. Os leitores, como nós, fazem um juizo aproximado do “descanso” dessa turma (champagne, casinos, mulheres, pois não?).

E para terminar com estas considerações, queremos afiançar aos leitores que já anteciparam o “veneno” sôbre êste escriba, que, de fato, êles acertaram: estamos falando isso porque não fomos convidados a participar dessa “boa boca”. Mas retrucamos aos leitores nessas condições: Vocês recusariam essa “mamata”?

Extraído do Correio de Marília de 23 de dezembro de 1959

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