sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Morar em S. Paulo... (16 de dezembro de 1959)

Existe gente atarefada em todos os lugares, não há dúvida. E, em Marília, idem. Inclusive nós, que às vezes sentimos dificuldades até em solver certos compromissos, maximé quando os horários dos mesmos coincidem ou se aproximam demasiadamente.

Às vezes, êsse borborinho todo, faz com que o cidadão olvide uma coisa a realizar e pode dar-se o caso de que essa coisa tenha um caráter urgente. Hoje em dia, poucas são as pessoas que não vivem submersas nesse mar de atropelos. Dizem que é o sinal dos tempos. Sinal indesejável êsse.

Os homens encurtam a vida, hoje em dia, nesse “dinamismo” todo, nessa labuta moderna. Alguns não podem evita-lo mesmo, pois uma série de fatores assim o exige.

A contingência da própria vida demanda, em muitas circunstância, êsse desdobramento de atividades. Não raro, o cidadão, principalmente se é chefe de família numerosa, tem que se desdobrar, tem que “se virar” e precisa mesmo arrumar algum “biquinho” extra-salário fixo e mensal. Principalmente nas Capitais. Maximé em São Paulo, a cidade da febre, das correrias e da exploração.

Existe gente que vive na Capital, em circunstâncias verdadeiramente sacrificiosas, pelo simples fato de “morar em São Paulo”. Conhecemos alguns antigos marilienses, que no passado trabalhavam entre nós e viviam “assim como Deus é servido”, mas viviam. Hoje estão em São Paulo e não vivem: vegetam, estão antecipando a hora da morte.

Sabemos de um cidadão que vive num bairro longínquo do centro da paulicéia, apesar de trabalhar no coração de São Paulo. Conforme os dias, o percurso de sua residência até o centro, demanda até duas horas ou mais. Condução difícil, congestionamento de trânsito, chuvas, etc., isso fazem resultar.

O rapaz “mora em São Paulo” e volta e meia “dá as caras” por aqui, todo empombado, belo e formoso, como se fôra um sobrinho de Nelson Rockefeller. Acontece que nós tivemos o ensejo de conhecer o seu “modus vivendu” paulistano. Resume-se no seguinte: Para entrar em serviço às 8 horas, levanta-se às 5, toma um cafezinho rápido e anda a pé, cerca de dois quilômetros para tomar a primeira condução (necessita de duas, para chegar ao centro). Chefa ao local de trabalho quase em cima da hora. Dispõe de duas hora para o almoço, tempo insuficiente para retornar à casa. Almoça, então, na cidade. Ou procura aqueles restaurantes de baixa categoria, onde adquire “vales” para refeições, ou se contenta com algum sanduiche. Às 18 horas deixa o emprego e se dirige ao ponto da primeira condução. Um mar de gente a formar filas intermináveis, um empurra-empurra, uma demora tremenda, as habituais “broncas” dos mesmos companheiros de infortúnio, etc.. Quase sempre, só consegue tomar o primeiro ônibus, lá por volta das 19 horas e normalmente chega em sua “residência” pela altura das 21 horas, às vezes até mais tarde. Janta algo frio, porque ninguém em casa, diariamente, faz o jantar tarde da noite. Depois estira o corpo cansado na velha cama e reenceta o “rodízio” de “levanta às cinco deita às onze ou meia noite”.

Dizem que gosto não se discute e o rapaz gosta disso.

O pior, entretanto, é o bairro onde o mesmo reside. Sem luz nas ruas, ermo, sem conforto, sem assistência médica ou hospitalar para um caso de emergência. Algumas vezes, desejando essa pessoa assistir um prélio de futebol durante a noite, não tem podido regressar, pois iria chegar em casa lá pelas três horas, para alçar-se às 5 e assim, prefere ficar na cidade, sem dormir.

Cada qual é dono do seu nariz e pensa conforme bem entende, é lógico. Nós nada temos a ver com o fato, mas como achamos ser uma estupidez uma vida semelhante à citada, referimo-la por simples curiosidade.

Extraído do Correio de Marília de 16 de dezembro de 1959

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