domingo, 20 de novembro de 2011

A Marcha da Fome (20 de novembro de 1959)

Sempre tivemos em nós, que, todas as medidas extremas são perigosas. Há que distinguir, entretanto, a medida extrema da necessidade extrema. Separar o joio do trigo e saber aquilatar os motivos existentes ou originários entre uma e outra.

Em Sorocaba, a magnifica “manchester paulista”, tivemos recentemente, segundo noticiariam os jornais sorocabanos, u’a medida que, além de extrema, foi indubitavelmente dolorosa. Realizaram os funcionários da Prefeitura de Sorocaba, a “marcha da fome”.

Para que os leitores tenham uma idéia da gravidade desse cometimento, transcrevemos a seguir um trecho de um comentário de José Carlos Paschoal, inserido no “Diário de Sorocaba”, edição de 12 ultimo: Vejam:

“Sorocaba assistiu, estarrecida, a Marcha da Fome. Centenas de trabalhadores municipais, cujos salários insuficientes estão atrazados há três meses, caminharam pelas principais ruas da cidade, carregando dísticos que atingiram o governo frontal e inapelavelmente. Dirigindo-se aos populares que se alinhavam ao logo das calçadas, num misto de curiosidade e revolta diante da brutal realidade, vários homens pediam esmola em favor das famílias desses funcionários desesperados. O próprio boletim que éra distribuído por onde passava o sintomático desfile, dizia: “Deus lhes pague o auxilio que virá amenizar em parte o sosofrimento dos servidores públicos da Prefeitura Municipal de Sorocaba”.

Por aí, poderá aquilatar-se a gravidade desse acontecimento. Servidores municipais de Sorocaba, com vencimentos atrazados por três meses, sem dinheiro, com os créditos dos empórios e das farmácias “cortados”, em verdadeiro desespero, em real miséria”! Humildes, desprotegidos, abandonados, constituindo a legião da fome!

O espetáculo deve ter sido efetivamente chocante, incrivelmente real. Doloroso. Mas, por outro lado, deve ter se constituído num brado de alerta, num motivo de cuidados especiais e de responsabilidade altíssima, não para os homens que integram o atual poder público de Sorocaba (porque estes, pelo visto, já demonstraram inércia e inépcia), mas, para os eleitos a 4 de outubro último e que será chamados a dirigir os destinos da “manchester paulista”, a 1º de janeiro próximo.

O fato em referencia, com toda certeza, deve constituir-se numa clarinada de alerta e num motivo de enorme responsabilidade, pois a futura administração municipal de Sorocaba, terá, de início, um dos mais sérios problemas municipais a resolver: a questão das finanças. O município que chega a atrazar-se em solver seus compromissos para com aqueles que, pouco percebendo, constituem a legião dos que operam a máquina administrativa em seu trabalho constante, verdade seja dita, está mal de vida e está mal dirigido.

De nossa parte, não conhecemos os dirigentes sorocabanos (e) contra os mesmos nada poderemos ter. igualmente desconhecemos as razões que os mesmos poderão apresentar ou terão apresentado, para justificar este lamentável estado de coisas. O que analisamos, na questão, é o disparate inaceitável, a situação inexequível. E o fazemos puramente do ponto de vista jornalístico, como simples observadores.

O panorama criado com a “marcha da fome” realizada em Sorocaba, ninguém poderá negar, é o prenúncio de algo tenebroso, que, como a pequenina bóla de néve que é ínfima ao desgrudar-se do cume da montanha, chegando gigantesca ao chão, poderá, se não for encontrada uma fortuna capaz de atenuar e contornar a situação, trazer em futuro próximo serias consequências. A ameaça, embora pacífica, foi de enorme gravidade.

Nossos auguros, daquí, para que Sorocaba possa transpor essa desagradável barreira de caráter econômico, normalizando a situação criada e óra referida, reencetando a sua gloriosa trajetória de invulgar e invejável progresso em todos os sentidos de sua dinâmica vida.

Extraído do Correio de Marília de 20 de novembro de 1959

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