segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Fazendo côro... (14 de novembro de 1959)

Não faz muito tempo. Foi quando Brasília principiou a tornar-se um conjunto étnico – negociatas, curiosidade e alucinação –, que começamos a rabiscar alguns de nossos artigueter a respeito. Sempre fizemos questão de deixar bem claro, que jamais estávamos sendo contra a mudança da Capital Federal; fomos sempre avessos, à formula e ao processo de como está sendo construída Brasília.

Dos pontos de vista que expendemos, encontramos, como é óbvio, opiniões divergentes. Uns aplaudiram, outros condenaram o que escrevemos. Teria de ser assim mesmo e tal fato atesta claramente, que, em verdade, vivemos num regime democrático, onde cada qual póde pensar livremente.

Mas, como dizíamos, muitos escritos divulgamos sôbre essa berrante e disparatante suntuosidade, plantada em pleno sertão, a custa da emissões e mais emissões de nosso desvalorizado cruzeiro, enquanto a nação capenga economicamente, num contraste flagrante, com os próprios brasileiros, que, por desdita, vizinhos da nova Capital, continuam passando fome!

E continuaremos assim a pensar.

A propósito dessa idéia, transcreveremos a seguir, um artigo do jornalista José Jorge Filho, divulgado no “O Município”, da cidade de Amparo.

Vejamos a sua íntegra:

“Atinge às raias do maior escândalo nacional as negociações e corrupções que se fazem em Brasília.

Não só deputados da oposição, como da própria situação tecem as criticas mais veementes contra Juscelino e contra aqueles que estão à frente da Novacap, que é a construtora da nova capital do Brasil.

Ainda agora, o Deputado federal Elias Adaime, do P.T.B., de Santa Catarina, denunciou na Câmara 17 pontos fundamentais contra os dirigentes de Brasília, que são 17 chagas vergonhosas, que estarrificam os homens de brio, que lançam sobre a Nação páginas negras acerca das bandalheiras grossas, que os felizes sacripantas do Governo Federal ousaram fazer à sombra das convivências execráveis dos próprios poderes públicos. Brasília, é, uma desgraça nacional. O próprio Supremo Tribunal Federal pela vóz criteriosa e solene dos seus membros, não está desposto a se transferir para a nova Capital, porque assim o quêr a megalomania do presidente voador, no mesmo tom acaba de se pronunciar o Supremo Tribunal Militar. Não se mudará.

Embóra o portentoso luxo de Brasília, ainda não há confôrto, residências adequadas, escolas, faculdades, comodidades, enfim, para aqueles que precisam se deslocar do Rio de Janeiro, onde há de tudo e do melhor, para se meterem à força do sertão goiano, porque tão só o quer e o exige a fantasiosa alucinação de um messias guindado à presidência da República.

É a falsa concepção de Brasília que nos deu o feijão a cem cruzeiros, a carne, o arroz, o trigo e outros artigos de primeira necessidade, no mercado negro! O dólar a duzentos cruzeiros é outra prova madrasta.

Essas as consequências trágicas que nos está legando o arauto e o argonauta do espaço.

Nunca se viu desgraça maior para o Brasil, vivendo na miséria em meio a tanta abundancia! É a pobreza moral dos homens que o dirigem na atualidade, inconcientes dos destinos da Nação.”

Extraído do Correio de Marília de 14 de novembro de 1959

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