domingo, 2 de outubro de 2011

Hospital para cavalos (2 de outubro de 1959)

Vimos há poucos dias, num filme “natural” projetado no Cine São Luiz, a demonstração do Hospital Veterinário do Jôquei Clube Brasileiro. Uma coisa realmente extraordinária, moderníssima, completa. Um hospital para cavalos, mais aperfeiçoado e mais adequado do que muitos nosocômios destinados ao tratamento de seres humanos!

Ficamos “matutando” sôbre o fato. Ficamos pensando quanto teria custado a excepcional obra, uma vez que nada ficou olvidado na sua execução. Arquitetonicamente, completa e ampla. Com as dependências totais destinadas ao seu uso. Salas de assepsia, de curativos, de cirurgia, de tratamentos demorados. Aparelhos cirúrgicos-veterinários dos mais custosos e modernos. Enfim, uma coisa efetivamente extraordinária e admirável.

Vimos nessa iniciativa, um contraste flagrante: Os brasileiros indigentes morrem nas ruas das cidades nacionais, por falta de leitos em hospitais. Leprosos andam nas ruas e comungam com todos indistintamente, o mesmo acontecendo com milhares de tuberculosos, por falta de acomodações em nosocômios. Psicopatas necessitados de tratamento adequado, vagam por todas as ruas o Hospitais mantidos pelos govêrnos são insuficientes para atender o número de candidatos e necessitados. Enquanto isso, os magnatas do turfe, constroem um hospital veterinário moderníssimo e caro, destinado exclusivamente aos seus cavalos milionários, animais da “high society” cavalar e “gente bem” do reino da cavalaria! Cavalos que de há muito vêm sendo tratados com avelas, vitaminas especiais e leite em pó importando e que possuem tratadores particulares à guisa de “babás”, inclusive para os banhos. Suspeitamos até que os banhos de classe dêsses animais são realizados com finíssimos sais perfumados, de igual tipo ao utilizado pelas estrelas do cinema francês!

O fato, pelo seu lado de humanidade, representa uma vergonha. Não que os cavalos, pelo simples motivo de serem irracionais, não mereçam tratamento veterinário quando urgido; absolutamente. Acontece, apenas, no caso, que o exagero chega a ser afrontoso. Os mesmos cavalos “papa milhões”, desfrutam agora de hospital melhor e mais completo do que os comerciários, industriários e funcionários públicos, porque êstes estão condicionados ao “amparo” de serviços hospitalares dos mais falhos e vagos, mantidos pelos institutos de previdência social ou de aposentadorias, cujas finalidades jamais chegaram a completar-se!

No caso, vale a pena ser cavalo “papa milhões”, óra se vale. Cavalos que além disso, até “corbeilles” de flores recebem por ocasião das vitórias em “marmeladas” que se convencionou chamar de “grandes prêmios”. Enquanto o brasileiro, de modo geral, passa fome, enquanto falta o feijão entre nós, num dos motivos mais vergonhosos do Brasil, os magnatas do Jóquei Clube dotaram aquêle antro de exibição de vestidos e chapéus femininos, com esse fabuloso hospital veterinário, melhor do que muitos hospitais propriamente ditos e melhor do que muitas maternidade brasileiras, resguardadas a distância da comparação!

É de estarrecer!

Daqui há algum tempo, êsses cavalos “filhinhos de papai” terão também suas piscinas particulares e até televisão. E enquanto isso, o povo... bem, o povo que se dane!

Extraído do Correio de Marília de 2 de outubro de 1959

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