quinta-feira, 28 de abril de 2011

Renovação de valores (28 de abril de 1959)

Pèssoalmente, convém frizar de antemão, nada temos contra quem-quer-que seja, dentre todos os marilienses que ocuparam ou ocupam cargos de vereadores em nossa cidade. Orgulhamo-nos até, de sermos amigos de todos, indistintamente. Entretanto, mistér é que reconhecemos que nosso corpo legislativo está urgindo uma reforma radical – uma renovação de valores.

Abordamos agora o assunto, porquanto a questão já chegou ao ponto de alertar a consciência dos principais partidos políticos, existindo alguns que já levantaram a bandeira do ideal de remodelação de homens públicos, com respeito à futura constituição dos novos integrantes da edilidade mariliense. Alias, tal assunto é hoje “prato do dia”, não só nas hostes políticas, como também no conceito dos próprios observadores, especialmente por parte das pessoas que, de uma ou outras maneira, denotam algum interesse e amor por Marília.

Não vai neste comentário, nenhum motivo de melindre aos vereadores marilienses de módo geral ou particular. A verdade é conhecida de todos e sua clareza meridiana já despertou as atenções de todos nós.

A primeira legislatura mariliense ficou na história da cidade, considerada que foi, como a “Câmara de peso”, de iniciativa elogiáveis e de ações estupendas, marcadas dentro de um critério de prática, razão e objetividade ímpares. Mais de trinta nomes compuseram o primeiro corpo de vereadores da primeira Câmara de Marília, após o período de redemocratização do país.

Atos daquela edilidade foram citados como exemplo frizantes, em diversas partes do Brasil; leis daquela ocasião, serviram de molde para diversas comunas brasileiras, pela perfeição, magnificência e oportunidade irrefutáveis. Citações encomiosas, enalteceram o nome de Marília e elevaram o alto nível legislativo de nossos vereadores de então, traduzindo uma atitude invejável para o valor de nossa cidade e de nossa gente, como uma precocidade de ações e feitura de leis das mais oportunas imagináveis.

Hoje, não é mais assim. Das três legislaturas que já experimentamos, a atual tem sido a considerada mais negativa, inquestionavelmente. Não que tenhamos alguma coisa em contrário contra qualquer de nossos edís, pois dentre o referido corpo, existem alguns que procuraram e conseguiram se desobrigar dos deveres elevadíssimos do cargo, de maneira airosa mesmo. Falamos, no caso, em tése. De modo geral, a atual legislatura é a que menos correspondeu e a que menos se coadunou com os altos interesses do próprio progresso e do dinamismo de Marília.

É, pois, louvável, essa revolucionária idéia de renovação de valores, para a constituição da futura Câmara Municipal. Precisa Marília realizar, em certos casos, um autêntico expurgo em seu corpo de legisladores, abolindo os que, comprovadamente, não corresponderam aos altos desígnios da importância dos cargos. Os que fazem mais política do que trabalho, os que não a frequentam com constância, os que nada fazem, a não ser comparecer às sessões, tomar café e água e votar de acôrdo com as conveniências partidárias. E, especialmente, aqueles que só abrem a boca para dizer “presente”, à hora da chamada nominal.

A idéia, como se sabe, não é nossa, embora sôbre a mesma tenhamos já, em outras circunstâncias, emitido nosso ponto de vista. Mas está tomando corpo, porque numa cidade de gente culta, todas as iniciativas de peso encontram de ponto a necessária guarida no conceito da opinião pública.

Para sua consumação completa, duas partes terão responsabilidade diréta no caso: primeiro, os próprios partidos políticos, que deverão proceder o selecionamento de valores, que possam, de fato, casar-se com os interesses óra aventados; segundo, os próprios eleitores deverão constituir-se em vigilantes fiscais, para, no caso de ter escapado à “peneirada” dos partidos, alguns nomes que não se enquadrem dentro do ideal referido, saberem aqueles discernir a diferença dos mesmos. Temos em nós, que encarando-se os interesses da cidade e a honorabilidade de suas tradições de exemplos e trabalhos, devemos, no caso em aprêço, olvidar mesmo questões de simpatias pessoais ou motivos de amisade, para consignar votos somente àqueles que, de conformidade com nossa próprias consciências, possam corresponder ao elogiável plano da remodelação desses valores. Senão, nada feito e tornaremos a presenciar, por mais quatro anos, uma Câmara composto de elementos, que, em sua maioria, não corresponda integralmente aos anseios e desejos de nossa própria cidade.

Nesse particular, poderemos ser exigentes, com justificados motivos: poderemos pretender, tão somente, que imitimos, de maneira geral, a primeira legislatura de Marília, após o período ditatorial.

Extraído do Correio de Marília de 28 de abril de 1959

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